Coluna de rádio

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Estreia dia 4, na rádio Sinesem Portugal. Depois que for ao ar, postarei os áudios aqui

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Quem escolhe as tragédias?

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Sua vida é reflexo de suas escolhas. Mesmo que eu perca duas pernas em um acidente? Mesmo que alguém muito próximo seja assassinado com requintes de crueldade? Mesmo que um filho tenha nascido doente e viva pouco tempo? Você tem mesmo coragem de dizer que fui eu que escolhi assim? É o tipo de questionamento que muitas vezes chega até mim, especialmente diante de minhas constantes afirmações de que “seu mundo reflete você.”

O que dizer? Recorrer ao “porque Deus quis” ou “é seu carma” ?

A experiência da vida é difícil, entre outros motivos, porque vivemos entre contradições, entre o agora e o ainda não, entre a finitude, o corpo que morre todos os dias, a mente que apaga, desgasta, desvanece, existindo no tempo enquanto se pode acessar dimensões atemporais na memoria, sem controle, expostos a choques de realidade que afunilam os caminhos até a perplexidade, daquele que, diante do muro, sem aparentes saídas, pergunta-se “E agora?”. Ninguém tem controle sobre as chamadas fatalidades e seria no mínimo desumano acusar quem quer que seja de “mas de um jeito ou outro foi você que escolheu”. Não! Nem sempre. Não posso acusar uma família passando férias na Indonésia de serem culpados pelo Tsunami, nem os passageiros de um avião que caiu de serem eles os responsáveis diretos pela tragédia. A vida é assim, o mundo está cheio de imprevistos e, saibamos, cada um de nós sempre estará expostos as dores, ao que alguns chamam de contingências e outros de aleatoriedade, mas, tanto um como o outro, nos pegam de surpresa e nos  esbofeteiam, desafiando que alguém se apresente para responder a escancarada pergunta: afinal, quem está no controle?

Sendo assim, definitivamente, nem tudo é reflexo de minhas escolhas e não posso ser acusado de responsável pela maioria das tragédias que me cercam, mas… Sim, há um “mas” nessa história: Mas sou eu que escolho o que vou fazer com isso e o que isso fará comigo.

Enquanto humanos, cada um de nós experimentará toda sorte de acontecimentos, seja os que definimos como bom, sejam aqueles que não se encontram nenhuma perspectiva para chamá-los de outra coisa a não ser maus, tragédias, dores. Todos teremos que lidar com esquinas, desvios, acidentes de percurso que exigirão mudança de caminho, alteração de planos, redefinição de escolhas e, aí é que está: mais do que a simples diversidade de experiências, é aquilo que escolho fazer com elas que definirá quem sou e o que estou me transformando.

Depois do luto, passada a perplexidade, superado o vazio, o que vou fazer com isso? Que nome darei a tragédia? O que farei com a perda?

De fato, na caminhada há muitas surpresas e tem dias que gostaríamos que nunca tivessem existido, mas é assim que crescemos  aprendendo a dar nome as coisas, chamando-as pelo que são e entendendo que posso superá-las, transformá-las e, apesar das dores, como as dores de um parto, renascer do luto, ultrapassar as perdas, enfrentar os medos e escolher ser alguém melhor.

É sobre isso que me refiro. Ninguém disse que seria fácil, ainda teremos que enfrentar leões e quem sabe o que virá? No entanto, passar por eles e seguir adiante, usar cada pedra para construir um pedaço da morada que cresce para dentro, superando, ultrapassando, transcendendo minha própria dor, projetando significados, enxergando espaços para crescer, por mais difícil que seja, por mais que eu queira sentar e chorar – e há tempo para isso- , por mais que eu ache que não dá. No outro dia, quando a noite for embora, levanto da cama e me surpreendo por conseguir andar, por ver o sol de novo, porque a noite passou e a manhã me trouxe até o dia da minha escolha, o dia chamado hoje, o dia daquele que entendeu que pode sim escolher o que vai ser na sua vida.

Não tenho controle sobre todos os acontecimentos, mas o que fazer com eles é unica e exclusivamente escolha minha.

Não posso evitar todas as tragédias, mas cabe a mim revivê-las sucessivamente todos os dias ou ultrapassá-las e sair mais experiente do outro lado.

Não gosto de tudo o que vejo e, se pudesse, pularia uma série de etapas, mas são elas que me tiram da zona de conforto e me dão chances para enxergar o que existia em mim, mas estava escondido.

Não sei lidar com uma série de imprevistos, mas aprendo se mantenho a serenidade de olhar, mesmo diante da momentânea perplexidade em lidar com aquilo que não quero.

Não quero experimentar tragédias e dores, prefiro o descanso e a paz, mas, ao enfrentá-los, desloco a experiência do descanso e da paz para dentro, não como fruto da necessidade de uma vida tranquila e estável, mas como reflexo de quem entendeu que é na interioridade onde vive a realidade.

Não concordo com tudo o que acontece, definitivamente mudaria muitas coisas na vida e assim, aprendo a esperar e ter calma antes de qualquer coisa, entendendo as dores produzem a paciência, a paciência experiência , a experiência, esperança e a esperança gratidão.

De dores em dores, de perplexidade às tragédias que não escolho, da luta e o do susto que não domino, sou eu quem escolho, afinal, o que vou fazer com isso?

Responder a essa pergunta é o que definirá quais serão todos os meus caminhos.

Nosso retrato

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Vivemos em dias onde olhar para alguém caído na rua, um corpo no chão envolvido em um cobertor no meio de uma madrugada fria, uma família inteira sobre a calçada forrada de papelão, sem comida, sem ajuda, sem dignidade, uma senhora idosa com a mão magra e enrugada pedindo dinheiro no farol, não passa de um exercício de pena momentânea, uma espécie de sentimento que alimenta nossa capacidade de condoer-nos sem agirmos, olharmos sem enxergamos, sentirmos sem experimentarmos que essa realidade não se refere apenas ao sujeito, mas retrata a todos nós; Nossas escolhas, prioridades, metas estão todas estampadas lá, escancarando nossa indiferença diante de uma mensagem maior, sútil e estrategicamente presente nas engrenagens que nos faz acreditar que é natural que seja assim. Até que o amor se esfrie de quase todos.