Quando cansa ser “bom”

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Agora a pouco um amigo revelou que desistirá de um trabalho bonito que está fazendo, simplesmente porque cansou. Investe tempo, dedica-se, empenha suas idéias, propõe renovação de mente, ainda que focada no ambiente que ele direciona seu trabalho. Cansou pela dificuldade em fazer-se entender, pela dor de socar ponta de faca e a frustração de enxugar gelo. Cansou de não ganhar nenhum dinheiro com isso, enquanto os que só pensam em dinheiro e não agregam, pelo contrário, atrapalham, aparentam prosperidade.
Chega uma hora em que a bondade cansa, e os pés quase se desviam, como disse certa vez o velho Asaphe.
Acontece que o mundo é um sistema fechado. Preso em suas crenças, valores, importâncias, conectadas umas as outras, criando uma roda perfeitamente engrenada, trabalhando incessantemente para manter-se como é, repelindo quem sugere que há erros.
Por isso a “bondade”, seja ela qual for, esteja onde estiver, falando a linguagem que melhor se expressa naquele momento, naquele tempo da história, naquele específico ambiente, encontrará resistência. Ser bom é completamente diferente de ser “bonzinho”, pelo simples fato que ser “bom” deriva do amor, que às vezes destrói para reconstruir, diz não, muitas vezes nada contra a maré, segue no anti fluxo quando percebe que é necessário, não adota o politicamente correto por ter consciência que as vezes o bem tem cara de mal e o mal traveste-se de bem. O “bonzinho” age conforme a própria culpa, preso em sua eterna insegurança validadora de doenças; age por pena.
Há um preço em ser “bom”. O “bom” , ou aquele que age por consciência, nunca se adequará a média e, por isso, jamais será unanimidade.
Mas vale a pena, não porque recompensas virão. Nem porque no “fim os bons sempre ganham”, ou sequer pela utópica perspectiva de imaginar que um dias as pessoas entenderão. Talvez sejam poucos. Não há promessas de aceitação projetadas em prosperidade e sucesso exponencialmente proporcional ao tamanho da nossa “bondade”.
É por isso que tão poucos escolhem esse caminho, mas, aqueles que escolhem (sim, é uma escolha), renovam suas próprias forças pelo simples fato de saberem que estão onde deveriam estar, coerentes com a morada que constroem em sua interioridade, consolidando fundamentos que ninguém vê, que não dá dinheiro, que não gera aplausos  que não chama atenção da mídia, que não faz de você nenhuma personalidade internacional, pelo simples fato que, quem escolhe agir por consciência, deve manter claro para si mesmo o valor de cada coisa e a certeza de que nenhum mundo compensa a vacuidade interior, tão alimentada pelas engrenagens que nos regem.
Posso me cansar de ser bom, nosso sistema é feito para isso, natural; mas então me recordo do que vale para mim, das desimportâncias que jamais substituiriam o valor da morada que cresce dentro de mim, reflete em meus olhos, vaza em minha voz e se estende inevitavelmente em tudo o que sou.
Isso não tem preço.

 

 

Semelhanças e fraquezas

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Substituímos as pessoas com certa facilidade, sejam os amigos, os cônjuges até mesmos os pais. Às vezes com certa dose de sofrimento, outras sem nenhum incomodo, o fato é que se formos honestos reconheceremos que optamos por nos relacionar com símbolos, não com pessoas, porque os símbolos nos servem, fortalecem nosso ego, nos projetam, enquanto o humano nos relativiza e, pelas semelhanças, expõe nossas fraquezas.