Sobre a tragédia em Santa Maria

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Quando a tragédia chega, traz com ela a perplexidade.

Olhamos para a dor e nos indignamos, pensamos nos familiares, nos jovens presos em um caldeirão de chamas, portas trancadas, sonhos brutalmente interrompidos, gente que ontem a tarde via o mesmo dia que nós, fazia planos, programava-se para a balada de sábado à noite sem a menor noção de que não haveria a manhã seguinte. Como disse Saramago, cada dia é o primeiro para uns, último para outros e mais um para a maioria. Para esses tantos jovens da tragédia em Santa Maria, a madrugada de sábado para domingo, dia 27/01/2013 foi à última.

É difícil escrever alguma coisa nessa hora, o país inteiro sofre, os familiares e amigos nem se fala. Não há palavras que confortem o suficiente, nem analgésicos que diminuam o sufocamento de almas que ainda não acreditam no que aconteceu com seus filhos, amigos, irmãos, colegas, primos, namorados que não existem mais. Pelo menos não mais a presença histórica, nem os corpos, só a lembrança e a saudade.

Tragédias nos chocam porque nos despertam para a brevidade da vida, a vulnerabilidade a que estamos expostos apesar da tecnologia, do conhecimento e dos avanços científicos. Nos confronta com o choque de que ninguém tem controle sobre nada, que a vida é breve pois hoje estamos, amanhã não mais. Piora quando o luto poderia ser evitado, especialmente nesse caso onde tudo indica que houve negligência da boate, despreparo dos seguranças, descumprimento de regras básicas que poderiam ter evitado tantas mortes.

Essa não é hora de gritarias, mas de silêncio e de choro. De reflexões e saudades, de questionamentos que invariavelmente suscitam sobre a lógica das coisas diante da perplexidade da dor.

Hoje é dia de trevas na alma de muita gente, mas um dia as trevas dissipam. Por mais ilógico que pareça, o sol sempre volta e com ele a tragédia produz perseverança, a perseverança, experiência e a experiência esperança. Esperança de que o fim dos ciclos não encerram nada, não são fechamentos definitivos, mas aberturas. Aberturas para novas perspectivas, novo olhar, nova mente que aprende a transformar dor em paradigma de mudança de mente e, por mais paradoxal que possa parecer, de renascimento, de mudanças de valores, de repriorizar escolhas, de reconhecimento de onde devo colocar meu coração, do que vale a pena minha paixão, do que merece meu amor, minha dedicação, minha energia, minha vida.

Um dia a dor será substituída pela saudade serena, pela lembrança das coisas boas que ficaram, pela pacificação se o coração permitir que a tragédia lhe ensine, deixando então de ser apenas tragédia e virando marco de experiência e de vida, ainda que por uma via tão dolorosa.

Os que morreram, estão bem. Todos eles. Acredito que foi como se acordassem de um sonho e, plenos e felizes, festejam a vida que de maneira alguma termina.

Resta aos que ficam, depois do choro, dos questionamentos, do luto que dura o tempo de cada um, a possibilidade de amanhã dar um significado pessoal a tudo isso e transformar essa aparente infindável dor, em esperança que da outro significado a vida, que aproxima mais as pessoas e nos chama de volta a nós mesmos.

Assim, honraremos, não a morte, mas a vida de todos esses que se foram e agora, no colo do Pai, voltaram para a casa.