Nos tempos imemoriais

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Sempre que reservo dez minutos do meu dia para recarregar meu carro, meu filho aproveita para conversar comigo.

Essa história aconteceu ontem de manhã.

“Pai, sabe o Seu João ?” ele disse enquanto mexia nos tubos de energia solar.
“Quem?” mesmo que não estivesse concentrado na minha atividade-o que não era o caso-, não me lembrava de ninguém com esse nome.
“O Seu João, que cuida dos sensores eletrônicos da escola.” respondeu levemente irritado.
Talvez fosse aquele senhor simpático e falante que de vez enquando vinha conversar comigo.
“Sei sim, nos falamos essa semana quando você chegou na escola, não é ?”
“Ele mesmo. Ontem eu ouvi ele dizendo que já foi profissional da voz” sua expressão era de total desconhecimento.
Acionei o botão de carregamento automático, sentei por alguns segundos e parei para ouvi-lo.
“Todo mundo achou engraçado. O que pode ser profissional da voz?”
“Filho, houve um tempo em que certas pessoas eram contratadas para falar bonito.”
Quando ouviu ele gargalhou, depois percebeu que eu me incomodei e engoliu o riso.
“Não é engraçado” fiz uma pausa e continuei:” Já faz algum tempo, mas era um trabalho muito legal.”
“O que era exatamente um profissional da voz?”
“Era alguém pago para ler textos, apresentar eventos, programas de rádio, gravar comerciais…”
“Comer…o que ?” ele me interrompe.
“Comerciais. Era uma maneira de vender produtos de empresas, mas isso foi antes mesmo dos leitores de mente. Chegou um tempo em que perceberam que estavam insistindo na fórmula errada e escolheram outros caminhos. Mas falávamos do profissional da voz..”
“..Isso. Não consigo entender como alguém era pago para ter voz bonita.”
“Como eu ia dizendo, isso já faz muito tempo. No tempo em que tudo era pura imaginação. Que uma voz do outro lado representava um estímulo para sonhar, criar mundos..” Me percebo saudosista e levanto do banco para checar os níveis de carregamento.
“Poxa pai, era tudo tão diferente….O que houve depois?”
“Vieram outras ferramentas, dar asas a imaginação deixou de ser importante, as pessoas descobriram outros meios de comunicação e o profissional da voz foi perdendo terreno.”
“Perderam os empregos?” agora ele prestava atenção na história.
“Mais ou menos. Primeiro aceitaram ganhar menos. Com o que ganhavam, os bons foram embora fazer outra coisa e a qualidade passou a ser duvidosa. Sem qualidade os profissionais foram ainda mais desvalorizados e isso foi aumentando.”
“Que triste. Será que foi por isso que o Seu João foi parar lá na escola?”
“Talvez. Mas o fato é que pouco a pouco os profissionais da voz foram substituidos por gente com outras qualificações como atores e jornalistas.”
“E isso é ruim?”
“Não necessáriamente. Esse movimento fez com que os que ficaram buscassem meios para competir com os que chegavam e isso os deixou mais versáteis.”
“E depois?”
“Mais versáteis, buscaram outros caminhos, encontraram mídias próprias e abriram seu mercado de trabalho.”
“E o seu João?”
“Sobre ele não sei, mas talvez tenha sido um dos que não se mexeu. Essa é uma parte importante: Alguns dos que já eram pagos para ter uma voz bonita não aceitaram as mudanças e ao invés de se adequarem, se magoaram.”
“E onde eles estão agora ?”
“Cuidando de escola, trabalhando em lanchonete… às vezes encontro um deles por aí.”
Ele não disse mais nada. Ficou pensativo, talvez pensando no Seu João, na história que contei, talvez com os pensamentos em outro lugar.
Hoje em dia as crianças são assim, não conseguem mais se concentrar.
Um dia estão aqui, em pouco tempo em lugares totalmente diferentes ; são os novos tempos.
Quanto a mim, voltei para o trabalho. Enquanto o carro carregava, pensei nos velhos tempos. Deixei a memória viajar lá atrás, quando eu era um dos profissionais da voz.
Faz tanto tempo, fiz outros caminhos, o mundo mudou e a profissão também.
Apesar disso, guardo na memória cada som. Quando fechos os olhos, lembro do cheiro do estúdio, do ajuste do fone, do barulho dos cartuchos… Meu Deus, que velho saudosista estou me tornado ! Melhor voltar para os afazeres e perceber que o mundo mudou, as pessoas tem outras coisas em mente.
Bons tempos aqueles em que ainda existiam os profissionais da voz.
Hoje não procuro falar nisso, é assunto passado.
Prefiro guardar para mim, mas confesso que de vez enquando me dou o direito de voltar no tempo e, ao som de alguma música antiga, um LP chiando, revivo momentos que só entende quem pode estar lá, seja de um lado – os que faziam – ou de outro – os que ouviam.
Quem sabe o que falo, nunca vai esquecer.
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2 comentários sobre “Nos tempos imemoriais

  1. Acredito que dons naturais sao diferentes do conhecimento que pode-se aprender. A voz bonita com a verdade da reflexão é sentida como música a quem as ouve, e nunca saírá de moda, por mais que a tecnologia avança. A genuidade do talento sempre permanece, como nossos convivios com nossos queridos filhos – que é algo mágico e vale mais que tudo.
    Agora, que carro loko é esse aí meu?!!!! Posta um video explicativo dessa tecnolgia aí

  2. flaviosiqueira

    Leandro, o carro é uma ilustração para o texto que supostamente ocorre no futuro. É como se estivesse escrito há 50 anos, entendeu? Abração e obrigado por esta ai.

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