Tiririqueiros

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Comecei a escrever esse texto sem muita convicção sobre tocar nesse assunto, mas as eleições estão ai e tem coisas que não dá pra deixar passar.

Lamento que seja difícil frequentar local público sem nenhum tipo de assédio dos postulantes: Carros de som em altíssimo volume, marchinhas insuportáveis dizendo que “fulano é do povo e veio para mudar”. Nosso amigo Obama nem imagina o quanto seu mote “change” influencia nossos candidatos tupiniquins.

Você pára no faról e vê aquelas moças com cara de fome, sono, desanimação, enfim, aparência de quem realmente está parada com uma bandeira na mão pela pura necessidade de alguns poucos trocados, empunhando o rosto sorrindo no retrato sob palavras de ordem como “mudança”, “renovação”, “saúde”, “casa própria”.

Claro que isso rende muitos momentos de humor, como os eternos candidatos as câmaras municipais, mas confesso que, pelo menos para mim, já perdeu a graça. Sinto cada vez mais dificuldades em rir com tipos que se elegem a custa da piada, da gozação com a cara do eleitor.

O pior é que a maioria de nós gosta.

Afinal, ninguém vota em um candidato :

1- Se estiver mal nas pesquisas ( se niguem vota é porque deve ser ruim, pensam)

2- Que fala a verdade ( se o candidato aparecer dizendo que tem coisas que são impossiveis de fazer sozinho e que vai precisar da consciência do povo, sabendo que parte da responsabilidade é dos cidadãos, certamente não se elegerá)

3- Que não tenha musiquinha. ( Tem gente que vota porque acha a musica bonitinha)

4 – Que não seja simpático. ( E daí se é competente ? Com esse mal humor eu não voto ! dizem)

5- Que não “aparente” ser bom . ( Nas roupas, tom de voz, olhar sereno…toda uma preparação para , com cara de bom moço, conquistar o eleitor).

Se precisamos disso para escolhermos nosso candidato, é só isso, um candidato moldado segundo nossa necessidade de boa aparência, que teremos.

A política, assim como as outras áreas de nossas vidas, também sofre as mesmas interferências da imposição da estética sobre a ética, da imagem sobre o conteúdo, da mentira dissimulada sobre a verdade, clara, aberta, objetiva.

Honesto ou não, competente ou não, todos os políticos são nivelados por baixo, pois sabem que não é o que pensam que lhes credencia a serem eleitos, pelo contrário, ganha quem aparentar mais, ainda que não seja. É isso que importa.

Como o Lula que certa vez questionado por contrariar no governo tudo o que sempre discursou disse : “Parei com as bravátas” sorriu o presidente cada vez mais popular.

Na busca da aparência ideal, rios, ou melhor, oceanos de dinheiro são gastos as custas de acordos com financiadores que, sabemos, depois inviabilizarão um governo sem “conchavos”.

E os culpados somos nós.

Enquanto esperarmos , sequer nos lembrando de quem votamos nas últimas eleições, campanhas políticas serão parecidas com teste para BBB ou mister simpatia. Puxadores de voto “tiririqueiros” serão eleitos para depois “contar o que os deputados fazem”.

O povo reclama, mas é o povo quem pede.

O povo acha ruim, mas, somos nós, o povo, quem banca esse espetáculo.

São alguns mêses de promessas de mudança, de rostos sorrindo, tapinhas nas costas, carros de som, musiquinha chata para depois, no fim das contas, experimentarmos mais do mesmo, esperando a mudança que, assim, nunca virá.