Eu, a velhinha e o sol

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A falta de umidade é tipica no planalto central. Sol, seca, calor, poluição, pó, sujeira nas ruas torna a caminhada em um grande aglomerado de gente, no centro de uma das cidades satélite, uma tarefa desagradável.

Tudo piora quando você está com roupa social, sapato, camisa, suando e louco por um ar condicionado.

A não ser que esteja na praia ou a beira da piscina, prefiro o frio, me desgasto no calor e, desgastado me fecho, fico sem vontade de falar , perco o bom humor. O ar seco parece deixar as coisas ainda mais dificeis.

Naquela tarde meu rosto se fechava na mesma medida em que meus passos apressavam, até que uma senhora beirando os oitenta anos passou por mim.

Ela caminhava com dificuldade, seus passos eram lentos, mas tinha algo de bom em seu rosto já bastante macado pelo tempo. Era calmo, os lábios finos com leve sorriso, o olhar contemplativo como quem sabe a importância de observar. Ela destoava da massa apressada, amassada e inquieta. Não se parecia com gente como eu, incomodado por conta do sol.

Talvez por ter notado que eu reparava, quando me viu disse “boa tarde”. Respondi sorrindo.

Foi rápido. Eu subi a rua, ela desceu, mas agora estou aqui escrevendo sobre o boa tarde da velhinha que mudou aquela tarde e me lembrou que minha fonte de energia mora dentro de mim e felizmente não está exposta ao calor do sol ou a secura de Brasilia.

A frequência com que me esqueço disso é bem maior do que gostaria. Quantas vezes me pego agindo como quem se entrega as variáveis humanas, climáticas, relacionais, financeiras ou existenciais, como se tudo isso fosse maior do que a fonte de energia que mora dentro de mim.

Até um dia quente pode nos tirar o humor.

Só que as coisas não precisam ser assim. Felizes os que enxergam, ainda que os olhos estejam cansados e a mente inquieta.

Quando a gente aprende que a vida fala, que os sinais estão em tudo e em todos, que não há nada que não traga sementes de oportunidades, discerniremos no olhar da velhinha que, apesar dos pesares, sempre podemos melhorar, nos vencendo, crescendo e aprendendo no sorriso daqueles lábios envelhecidos que não é no corpo, na juventude, no ar condicionado, no conforto ou em qualquer outro lugar que encontramos a paz.

Só entenderemos que a paz mora dentro, quando deixarmos de olhar para o sol, quando o calor não for suficiente para nos abater ou a falta de umidade não for maior do que é. Somos mais do que tudo isso.

Ás vezes me canso, sobrecarrego a mente sem nenhuma necessidade, mas procuro ficar atento para as velhinhas que a vida manda. Quando elas surgem, basta um “boa tarde” e ai me lembro de quantas vezes preciso ser resgatado, especialmente quando, distraido, caminho para longe de mim e me perco. Deus fala na brisa, no silêncio e no sorriso das velhinhas.

Naquela tarde segui meu caminho e o sol nem ardia mais.

Mais perto de casa

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Recordo como se fosse hoje:

Eu tinha mais ou menos 6 anos e subia a escada do apartamento que morei até a adolescência, na Vila Olimpia, em São Paulo.

Enquanto meus pezinhos com “kichute” faziam barulho nos degraus de madeira, um subito pensamento me alarmou: “Cada degrau que deixo para trás, signfica um segundo a menos em minha vida.”  Diminui o ritmo e continuei pensando sobre isso.

Agora os passos eram lentos, e, olhando fixo para o degrau de cima, me arrepiei em pensar que ao chegar lá estaria- ainda que poucos segundos- mais perto do fim.

Vivemos tentando esquecer que tudo o que chamamos de “tudo” é só um breve “por enquanto”.

Pelo fato de ninguém saber exatamente como é “do outro lado”, temendo o desconhecido, preferimos não pensar na morte acreditando que ela é o fim.

Não me peça argumentos lógicos mas sinto que não é assim.

É questão de percepção.

Se aos seis anos cada degrau representava segundos a menos, hoje sinto como se cada minuto me enchesse de algo que, ao invés de subtrair, multiplica.

Na infância eu temia o desconhecido mas, na vida adulta aprendo que há sentido até no vazio.

A sensação de que viveremos sempre, conflitando com a realidade da morte, é um claro indício que dentro de cada um de nós vive um pouco da eternidade. Convivemos com a eterna inquietude de quem vê com olhos infinitos a desconstrução de sua própria finitude. Anseamos o “para sempre” enquanto o agora vira passado, sempre.

Não somos um corpo.

Ouço minha voz mesmo quando não abro a boca e tenho a capacidade de sentir, mesmo quando não estou prestando atenção em nada.

Há um mundo em mim. Sinto seus movimentos, ouço sua voz, interajo com esse que define como enxergarei todo o resto, inclusive o que sou. Mesmo que não sabia explicar, experimento a condição de ser carne e conhecer o amor, ser ossos e orgãos e transcender-me, ir além, expandindo em consciência.

Limitado em meus sentidos, sei que estamos conectados, que esse lapso de vida tem eternas implicações naquilo que estou me tornando.

Escrevo sobre o que vejo e, de alguma maneira, encontro eco em você, que está aqui lendo.

São pequenos sinais, sutilezas e coincidencias que evidenciam que em mim tem um pouco de você e, sem você em mim, nada existiria.

Em cada mente um mundo e em cada mundo canais de comunicação que nos permitem sermos um.

Identifico nossa unidade e entendo que, sendo assim, nunca acabaremos.

Não somos corpo, nem água, sangue, terra ou ar. Preciso do corpo, respiro e me alimento do mundo, mas não me encerro aqui.

Sou um pouco do que penso, falo e vivo, de forma que, em cada pegada, cada pensamento, cada texto, deixo um pouco de mim.

Não sei se serão minutos, anos ou décadas mas, um dia teremos a resposta.

Por enquanto, fico com a sensação de que, em cada degrau, estamos mais perto de casa.