Nós, os filhos e a culpa

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Criar filhos não é fácil.

Não é questão de ensinar “certo” ou “errado’, “faça” ou “não faça”, mas é forjar nele consciência.

Só que a maioria de nós cresceu sob a batuta do medo.

O medo sempre foi a moeda de negocição na hora de dizer “coma ! Se não…” “Diga ! Se não…..” , “Pare com isso ! Se não…”  E de “ se não” em “se não” fomos incutindo a idéia da punição e, por consequência, da culpa.

Na nossa tabela de valores só é punido quem é culpado( pelo menos em tese) de forma que, se fui punido, devo ser merecedor.

Desse merecimento nasce a culpa que nos transforma em “pagãos”.

Barganhamos com Deus e os homens uma maneira de sermos aceitos através de performances, sacrificios ou demonstrações de merecimento.

Agora, pense comigo, para que o outro perceba que eu mereço, minha virtude deve ser exposta.  Se eu não colocar pra fora, no outdoor dos meus feitos, ninguém vai ver e, se ninguém ver, não receberei o que mereço: reconhecimento, amor, cuidado, aplausos, elogios, embalos, sorrisos, oportunidades.

Só que tem uma coisa:  quando expomos  para que todos vejam, invariavelmente começamos a nos comparar. Em maior ou menor grau o outro passa a ser minha referência.

Se me comparo quero ser melhor e essa busca gera competição. Quando é assim, toda busca pela evolução vira um fim em si mesmo; sem proveito de fato.

Como sair desse ciclo ?

Abrindo mão da culpa em busca da consciência.

Não andar sob a batuta da culpa é completamente diferente de ser inconsequente ou egoísta, pelo contrário, sem culpa é saber que meu caminho é único e ninguém pode fazê-lo por mim. É entender que já não importa o que os outros pensam porque o que vale é o que de fato sou, ainda que ninguém veja.

Sem outdoor, mas indoor. Para dentro, não para fora.

Quem anda culpado é sequestrável. A culpa é como uma bola de ferro amarrada no tornozelo, presa a qualquer pessoa ou situação que se apresente com mais força.

Desafiador é gerar esse caráter em nossos filhos.

É saber dizer não- certamente impor limites- mas sem culpa.

Desde que meu filho é pequeno periodicamente faço a ele uma pergunta:

– O que você pode fazer que me faça deixar de te amar ou te amar mais?

– Nada ? – Ele já sabe a resposta

– Ainda que você faça a pior das coisas e mesmo que me deixe triste e zangado, ainda assim nada mudará em relação ao meu amor. Assim como não te amo por nada de bom que você faça. Ainda que me agrade e me deixe feliz, meu amor não aumentará, pois é amor e sempre será assim. Nada que você faça me fará te amar mais, assim como nada de errado que você fizer me fará amar menos. É assim que o papai é contigo e é assim que Deus é com a gente.

Quando digo isso ele sempre dá um suspiro, vem perto e me abraça.

Não há mais o que dizer.