O Texto e a vida – (Áudio e Video)

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É só não estragarmos as coisas

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Se não estragarmos, as chances aumentam.

Somos nós em nossa afobação – na intranquilidade da alma que produz desconfiança – que impedimos os processos naturais que nos conduzem para o bem.

É nossa insegurança disfarçada de onipotência, nossa crença na auto suficiência que intoxica, entope, turva a percepção e nos faz pensar que somos independentes, que não há conexão.

Pagamos o preço de nossa cegueira.

Se soubessemos que está tudo encaminhado, que não era para ser assim…

Entenderiamos que o descanso é necessário. Que a confiança não é tolice, que não somos onipotentes, pelo contrário: o mais poderoso dos homens não sabe o que será amanhã, tampouco pode evitar que nessa noite seja  assombrado por seus próprios medos.

Saberiamos a hora de aquietar, emprestando a vida o significado que mora no coração, com serenidade, em paz.

É só olhar com olhos de ver.

É assim para os pardais,  entre os peixes não há Eikes,  a natureza e o universo são sustentados em harmonia; não precisamos de afobação. Enquanto você lê os lírios repousam, os leões não pensam na caça de amanhã, os jacarés, tubarões e macacos se harmonizam com toda a criação que se aquieta e vive o dia chamado hoje.

Não lhe parece tolice pensar que com você é diferente ? Às vezes tudo o que falta é a única coisa que você não fez: aquiete-se, fique em silêncio e enxergue.

O texto e a vida

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A vida é como um texto que começa sem muita explicação.

A gente simplesmente vai passando os olhos, deixando que as linhas balizem e as palavras conduzam à algum lugar. O que parecia ser monótono ganha elementos, cheiros, caras, histórias, vida.

Abraços e afagos, alimentos, cuidados, embalos , olhares e amores. Bolas, balas, desenhos, corridas, aventuras, lutas, meninos.

Mudanças, experimentos, rebeldia, novidades…meninas. Ah, as meninas…

O tempo passa, o texto flui, as possibilidades virão, as pessoas serão, eu serei. Sou? Ainda não. Luto, desbravo e adiciono uma palavra que não tinha usado: competitividade.

Ando com pressa, escrevo com velocidade, não quero errar, não volto atrás, sem correção, faço, foco, empenho, desejo, meta, responsabilidade, carrego na tinta, marco o papel, mas não me importo.

Trabalho, organizo, planejo, calculo, semeio, realizo, excedo, associo, separo, cobro, dobro, cresço, reúno para não espalhar. Na última linha todos verão: eis minha obra prima !

A exclamação rasgou o papel. Melhor arrumar, melhor acalmar, seguir com cuidado, devagar, já disse muito até aqui. Nesse texto que é a vida, eu jogo palavras, combino, relato, me deixo envolver até que em um lapso perceba que daqui a pouco termina.

Não quero que acabe. Leio com calma, aos poucos, valorizo as palavras desfocadas, mais clareza, mudanças, sem muitas questões.

Luto: Os que eram deixaram de ser, memórias descolam, as tintas desbotam, menos força no papel, não quero rasgá-lo, as tantas linhas escassearam.

Melhor falar sobre o mar. Você quer ouvir? Descrevo uma praça com bancos pintados de verde, caixas de areia, mães e suas crianças que chegam com bolas e balas, desenhos, correndo em aventuras cheias de lutas.

Ninguém me vê.

Sente-se ao meu lado, fique aqui, ouça: há adolescentes com suas mudanças, rebeldes, em busca de novidades e elas…ah, as meninas. Enxerga adiante? É para lá que eu vou.

O por do sol tingindo as nuvens, os raios intensos batizam o ar, iluminam as partículas, os insetos, as pessoas que nem vêem.

E a brisa? Ralos fios brancos dançam sua música com serenidade, não há quem perceba. Tenho mais a dizer, não sou só isso, um menino me vê. As palavras fogem. Queixo no peito, cochilo e a vida inteira em um segundo. Tudo passa e só agora vejo.

Suspiro.

Como um texto que começa sem muita explicação. A gente simplesmente vai passando, passando até que as linhas findem, a tinta acabe e o texto termine.