O palido ponto azul

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Carl Sagan falou sobre essa foto histórica numa conferência em 11 de Maio de 1996:
“Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pensai nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração desse ponto. Pensai nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores dalgum outro canto, quão frequentes as suas incompreensões, quão ávidos de se matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa. O nosso planeta é um grão solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de algures para nos salvar de nós próprios.
A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que alberga a vida. Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar. Visitar, pôde. Assentar-se, ainda não. Gostarmos ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.
Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido.”

Em busca do ideal

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O único jeito de não se modelar pela massa é o constante, intenso, diário, recorrente e persistente exercício crítico de auto revisão, renovando a própria mente, expandindo-se como quem sabe que sempre estará muito longe do ideal, mas mesmo assim o persegue.

A ambiguidade de existir

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Vinte e três de Abril de dois mil e três. Lembro daquela manhã ensolarada em São Paulo, o dia mais significativo na minha vida, com sentimentos contraditórios.

No dia do nascimento do meu filho, um jovem casal chorava a perda do filho de três anos.

Enquanto eu comemorava a chegada do Flavinho, perto de mim, pais, parentes e amigos do casal chegavam desnorteados ao saberem da notícia da súbita morte daquele menininho que horas antes eu vi chegar as pressas, no colo, sem força.

Em todos os aniversários do meu filho, lembro daqueles pais.

A vida é assim. Dias bons e dias maus.

O que nos difere é como lidamos com eles.

Somos nós quem damos significado às coisas a partir daquilo que somos, afinal, bem e mal vivem em nossos corações e refletem no que nos acontece.

Ainda que a morte, doença ou miséria sejam dificeis de lidar e não tenhamos palavras para a perda de um filho, o fato é que são acontecimentos presentes na vida. Tudo o que vejo parte de uma única, limitada, parcial e apequenada perspectiva. Não vejo as pontas se tocarem, os nós desfazerem, as voltas e desvios que nos tocam, moldam, desfazem para refazer em completa assimetria, como o tapete olhado pelo avesso. Tudo o que sei está ligado aos meus caprichos e, quase sempre, chamo de “necessidade” minhas próprias inseguranças.

Convivemos com o contraditório porque somos assim, extistindo entre o bem e o mal, luz e trevas, dia e noite.

Acredito de todo o coração que aquela criança está feliz, plena, entendendo tudo, em casa, portanto não se trata dela, mas de nós. Conheço minhas limitações físicas, cósmicas, espirituais, minha completa relatividade diante das dinâmicas da vida e por isso não me precipito em juízos, em dizer que deveria ou não deveria ser assim. O Pai que a acolheu sabe.

Hoje estamos aqui, amanhã quem sabe ? Um dia vamos dormir sem saber se acordaremos e tudo o que sei está contido no limite do meu horizonte. O meu dia vinte e três de Abril, com crianças nascendo e morrendo, se repete todos os dias, inclusive nesse exato instante onde pais celebram e se enlutam e o significado de cada coisa, de cada alegria e cada dor, cada expectativa e cada decepção, cada sorriso e cada lágrima, está restrito ao que cada coração produz diante do que lhe acontece.

Esse poder – de dar significado a coisa coisa- é seu. E será assim até o dia de voltarmos para casa, abrirmos os olhos e gratos, talvez perto do nosso amiguinho que foi mais cedo do que gostariamos, concluirmos que de fato valeu a pena.

Enquanto isso procuro manter os olhos abertos, antentos, a mente desobstruida de conceitos tangenciados por medo, egoismo, culpa e insegurança, o espírito livre e o coração grato, sabendo que, no fim das contas, bem e mal são apenas estradas de um mesmo caminho, se misturam, se explicam, se completam e se cumprem, revelando cada interior de forma absolutamente pessoal, cooperando para que eu aprenda o significado de ser humano, expandindo meu horizonte, dilatando minha consciência que só cresce no meio da contradição, dos questionamentos, das dores, da ambiguidade de existir.