O Matrix dos nossos dias.

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Muita gente me escreve, ou mesmo pessoalmente, acaba de um jeito ou outro dizendo o seguinte: “Você vive fazendo críticas ao sistema, ao fluxo de nossa cultura, como se tivessemos escolha. Vivemos no sistema e não há como nos desconectarmos.” Mais ou menos como aquela coisa do Matrix que nos conecta, envolve, tangencia, modela e conduz, ao ponto de praticamente não deixar alternativas. O que de fato significa sair do sistema, se é que é possivel?

Minha resposta é a seguinte: O tal do “sistema” é uma cultura. É um jeito de olhar a vida sob a perspectiva da media, como se o caminho oferecido pelos nossos sistemas (economico, religioso e político) fosse a única alternativa. Sem perceber, adaptamo-nos a eles e, pior, comemos e bebemos toda a comida que nos dão, seja em forma de estilo de vida, sonhos, arte e entretenimento. Aliás vivemos entretidos. Entretidos com nossos devaneios, nossas loucuras narcisistas que se projetam no que chamamos de “sonho”, “meta” ou qualquer outro nome que preferimos dar.

Mas, como eu estava dizendo, o “sistema” é uma cultura e seu maior perigo é instalar-se em nós como verdade, impregnando-se em nossa mente, absolutizando-se em nosso olhar.

Sair do sistema não é virar um ermitão, comendo grilos e morando no meio do mato. É bem mais do que isso.

Também não quer dizer fechar suas contas no banco, deixar de ir ao supermercado, plantar uma horta e viver dela.

Tampouco está ligado a deixar de ler jornal, se informar ou saber o que acontece a sua volta.

Não é isso que proponho.

Para mim, deixar o sistema tem a ver com uma profunda mudança de olhar, um re-significar da vida, um revisar de valores, constante, continuo, presente em todas as minhas escolhas. Acredito que, além do fluxo do sistema existe o fluxo da Graça ou, se preferir, o fluxo natural. É aquele onde nos colocamos a serviço do outro, doando à vida o que temos de melhor, nosso tempo, nossos dons, nossos cuidados, nossas melhores energias.

Quem se coloca no fluxo da Graça, tem seu trabalho, paga seus impostos, vai ao shopping e vive sua vida com tranquilidade: ele está no sistema, mas o sistema não está nele.

Essa simples (e extraordinária) inversão subverte naturalmente suas prioridades e, a partir disso, reorganiza todo o seu mundo, afinal, o mundo que você vive reflete aquilo que você é.

No fluxo da Graça o deslocamento natural é em direção ao amor. Não me refiro ao amor romântico necessariamente, mas ao amor como condição existencial, que dá sentido, que desentope as percepções tão poluidas com os detritos do sistema.

Não há complicações. O que estou dizendo é que podemos conviver em nossa cultura, servindo-nos do sistema, mas não deixar que ele sirva-se de nós, morando em nossa mente, instalando-se como senhor de nossos sonhos e melhores energias.

No dia em que isso ficar claro para você, acredite, seus olhos se abrirão para as infinitas possibilidades que já estão em seu caminho, todas apontando na direção de uma nova construção interior, um novo SER que agora simplesmente vê.

Hoje parece difícil pelo simples fato de estarmos lotados dessa cultura.

Desentupa-se, desconstruindo-se, questionando-se, revendo cada elemento dessa construção que você chama de “eu”, entendendo o que te fez ser quem é.

Abaixo um vídeo gravado por mim com uma fala de Jesus que considero revolucionária. Ela fala sobre descansarmos, acreditarmos, deslocando nosso olhar do nosso fluxo financeiro para as aves do céu e os lírios do campo, na certeza de que basta a cada dia seu proprio mal. Descanse, aquiete-se, confie no fluxo natural da Graça que não cabe em nenhum sistema simplesmente porque tem o poder de desmontá-los.

Reflita com calma, entenda, aquiete-se. Enxergue com olhos de ver. É aí que tudo começa.

Eu e o rádio

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Comecei no rádio em 1991. Não sabia que viraria profissão, tampouco que faria tantas coisas, tantas rádios, tantos estilos diferentes na capital de São Paulo. Aprendi muito, conheci pessoas maravilhosas e de fato vivi momentos especiais, mas, desde 2003, algo me incomodava e eu não sabia direito o que era. Demorei para perceber que havia se instalado um conflito: enquanto eu tinha sede de crescimento, o rádio relutava em não ir pra lugar nenhum. O problema é que até entender que estávamos em perspectivas diferentes, fiquei chato, implicante, impaciente, o que não fazia bem a ninguém. Agora, quase um ano depois que sai da última emissora que trabalhei aqui em Brasília, olhando para trás, sou grato por tudo o que vivi e mais grato ainda por ter tido a coragem de seguir adiante, de parar de dar murro em ponta de faca, de construir meu caminho com as pedras que apareciam. Amo o rádio, sonho em fazer algo relevante e que toque as pessoas de verdade, mas, enquanto não acontece, fico distante, mantendo meu vinculo com ele através meu trabalho na Rede Pampa em Porto Alegre, casa de gente querida e que gosto tanto. Aprendi que podemos expandir nosso universo profissional coerentemente com nossa expansão pessoal, que podemos atrelar a comunicação aquilo que somos e, com criatividade, continuar sendo relevante, falando com gente, sendo gente, crescendo em todos os níveis.

Esse ano encerrei minha coluna de mais de dez anos no site mais respeitado sobre rádio, terminei meu programa na rádio em Portugal, tomei iniciativas para que eu pudesse me posicionar em relação aos caminhos que a vida tem me oferecido; meu trabalho crescente como escritor, na TV, diretor de programa e tantas outras frentes que surgem aqui e ali, mas de modo algum perdi o amor pelo veículo que nasci, cresci e aprendi a falar.

Um dia volto, mas, até que aconteça, fico na torcida para que o rádio encontre seu caminho e descubra o incrivel potencial inerente em ser ferramenta relevante de comunicação, que faz diferença, que toca nas pessoas, que vai além das música, dos prêmios e da hora certa.

Esse é meu desejo, na expectativa de que algum dia a gente volte a se falar.

Enquanto isso, fiquemos nas lembranças como essa “coletânea” de alguns momentos meus no rádio.