Um desabafo – Troca de de e-mails.

Padrão

Recebi essa mensagem que posto a seguir, vindo logo depois minha resposta.

Por questão de privacidade, poupei o nome do remetente.

Um desabafo Venho a escrever este desabafo em um momento em que as palavras me consumem por dentro, depois de ver tanta violência, seja esta de qualquer natureza, me sinto mobilizado e emocionalmente instigado a dizer alguma coisa. De certa forma todas estas palavras estavam já há muito tempo presas em minha garganta, e através de um novo mundo do qual estou me deparando, acho as frases certas que podem descrever de maneira completa o meu sentimento. Sinceramente não consigo entender como as pessoas conseguem conviver consigo mesmas hoje em dia, sem ao menos olhar para o lado. Tenho estudado e me informado, debatido e crescido, e me deparei com um muro de concreto, duro e nada maleável, que é extremamente difícil de ultrapassar, impossível de ignorar. Pode ser que seja apenas eu, mas me importo em algum nível com as outras pessoas, com o rumo com o que a sociedade está tomando. Não digo todos, mas grande parte da nossa queridíssima sociedade não enxerga, ou pior, não quer enxergar o caminho de violência moral e física que sofremos dia-a-dia. As pessoas se importam em comprar roupas, acessórios, acumular dinheiro e assim chegar algum dia ao almejado status de ser “bem sucedido”, à burguesia. Enquanto isto, outros estão passando fome, roubando e matando por não terem a mesma oportunidade que alguns poucos pensam ser “natural”, pois ganharam, não são dignos de meritocracia alguma, sempre viveram essa realidade. O problema está no grupo que rege as vontades a serem manifestadas, as felicidades a serem compradas, a religião a ser seguida, o caminho a ser trilhado, a burguesia. Este resultado é fruto de um processo histórico que vem acontecendo há muito tempo, desde o surgimento, ou ainda mesmo antes, do capitalismo – “A história da humanidade é a história da luta de classes” – Marx. Acredito que as pessoas de hoje não são as responsáveis por tudo isso, mas são pelo fato desta realidade ainda não mudar, adquiro um posicionamento crítico com os que não fazem nada, e nem querem fazer, fadados e acomodados à alienação. O capitalismo trilhou a isso, valorizou a individualidade a tal ponto que se criou uma “desumanização”. Hipócritas são os que contribuem com isso se autodenominando “homens direitos”. Todas as cidades do Brasil, que sá do mundo, sofrem com o produto da diferença de classes, estou cansado de ver violência contra pessoas, agressões físicas, roubos, estupros, e tudo mais que a sociedade “se acostumou” a ver. Pois eu não consigo aceitar que tais brutalidades sejam incorporadas na nossa sociedade e vistas como algo do cotidiano, tudo isto não é cotidiano, tudo isto são erros gritando na cara de cada um e mostrando a todos de maneira explicita que tem alguma coisa errada, aliás, não alguma coisa apenas, mas sim todo um mundo de erros. E ainda conheço pessoas que aceitam e apóiam isso, não enxergam que o tão grandioso capitalismo destrói a cada dia mais os seus próprios criadores. Estou cansado, é isso que vem a minha cabeça a todos os momentos, eu estou cansado de tudo isso, da correria, da pressa, da competição acima de tudo, do sofrimento geral, e enquanto o homem não funcionar pelo amor, pela igualdade, as coisas continuarão assim. As pessoas precisam conscientizar-se da situação que estão vivendo, sair do “automático”, dessa infeliz e brutal alienação; e realmente olhar, escutar, dar atenção ao caminho que está sendo trilhado, será verdadeiramente esta realidade que você quer? O que você faria se pudesse ser e fazer o que quisesse, independentemente de dinheiro, de preconceitos, de quaisquer outros impedimentos que venham a sua cabeça? Será que você realmente teria a vida que tem? Será que teria o emprego que tem? Será que seria amigo das pessoas que é? Questione-se, questione o mundo, as pessoas, e tudo ao seu redor, quem sabe você não acha uma realidade que realmente lhe faça sentido, uma que realmente lhe faça feliz, apesar de todos os apesares. As pessoas que você e a sociedade inteira criticam são as pessoas que fizeram isso, e hoje lutam por algo que acreditam, será que essas pessoas realmente são “inimigas” e dignas das acusações que lhes fazem? “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.” Che Guevara

___________________________________________________________________

Resposta: Meu amigo, quem se recusa a enxergar a vida sob as lentes dos sistemas, sente esse incomodo que você desabafa. É por isso que aqueles que “mandam” precisam dos “ismos”, e não é apenas o capitalismo. Sistemas são feitos para “organizar” pensamentos e aquietar as mentes. Cria-se a “media”, mediocre, submissa, pacata. Em troca do status de “normal” ou para simplesmente poder jogar o jogo, a maioria aceita os valores como eles se impõe, ainda que nem sempre tenha sido assim para todos. Digo isso porque grande parte desses caras que hoje comandam o sistema, já foram inquietos assim como você.(exemplos não faltam) Um dia questionaram, criticaram, escreveram artigos, criaram partidos políticos, participaram de revoluções, tentaram mudar as coisas sem saber que no fim quem mudaria eram apenas eles. Veja as universidades: protestos, propostas e manifestações de descontentamento que depois diminuem, diminuem e diluem na mesma proporção que os cabelos caem ou ficam brancos. E por que? Porque o problema não é o sistema, nem os “ismos”, nem as ideologias, mas as pessoas. Humanos são assim. Se inquietam e se adequam, esmurram e abraçam, cospem e engolem, reclamam e aceitam revelando suas eternas contradições, inerentes em nossa propria humanidade. Quando o revolucionário  encara sua impotência, quando o murro perde a força e a empolgação diminui, a troca pelo ceticismo é praticamente invevitável e dura até que, tomara, a sabedoria chegue. Ela vem com os anos e a partir de experiências que ensinam uma coisa simples, mas essa sim, revolucionária: O mundo é mau e sempre será, portanto, minha maior força está no reconhecimento da minha propria fraqueza. É essa consciência que me faz resistir. Os sistemas não mudam, pelo contrário: se entranham, envolvem e desenvolvem, sendo que seu maior mal é instalar-se na mente e no coração das pessoas, de modo que o problema não é viver no sistema, mas deixar que ele viva em nós, tornando-nos parte dele, confundindo-o com nossa própria natureza ambigua e facilmente seduzivel. A expectativa de que um dia as coisas mudem, sem considerar de que a mudança real só é possível em mim – apesar dos “ismos” – só cria frustração. Toda mudança acontece quando quem muda sou eu e o “ideal” para a sociedade passa a ser praticado como ideal individual, no chão do meu caminho, no meu horizonte, entre aqueles que encontro no dia a dia e me experimentam, dando a mim a oportunidade de SER amor, SER inclusivo, SER justo, SER pacificador, SER honesto, SER paz, SER misericordioso, SER grato, SER do bem. Não são os sistemas que SERÃO, sou EU. Minha tarefa é sobretudo enxergar e praticar o que nunca verei implementado de fato em sistema algum, mas será a única verdade do mundo que sou, se antes de querer mudar o mundo de fora, eu mude o mundo de dentro a partir do meu olhar e por consequência das minhas atitudes. Injustiças sempre existirão, dores, inconformismo, corrupção, mentira, aproveitadores…faz parte de nossa realidade imperfeita, mas felizes os que entendem que a única chance de melhorarmos um pouquinho tudo isso, salgando a vida tão sem sabor, é melhorando-nos e, apesar dos pesares, criando o melhor dos mundos em nossos corações que vazará e se multiplicará à todos os que nos rodeiam, mudando os mundinhos, brilhando onde tudo parece escuro. Essa é a verdadeira revolução e ela só é real se começar em mim. Abração pra vc !! Flavio.

Anúncios

4 comentários sobre “Um desabafo – Troca de de e-mails.

  1. Judite Rocha

    Sou da palavra simples,as vezes não alcanço o que vc fala.No entanto,penso que compreendi seu pensamento. Talvez esta seja a revolução mais rejeitada,e por mais que possa parecer exaustivo,é dela que emergem ações verdadeiramente significativas.Um abraço.

  2. Roseany

    Flávio queria muito ler seu livro, mas no momento estou sem condições de obter. Por favor, se puder me envie por email.
    Obrigada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s