Nosso pequeno lar

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Esse texto (extraido do blog da Rosana Jatobá) é do saudoso astronomo Carl Sagan.

Ele foi escrito em 1991 depois que, no ano anterior, astronomos pediram para que os controladores da Voyager tirassem uma foto do planeta Terra a bilhões de quilometros de distancia.

O resultado foi um pálido e pequeno ponto azul ( foto abaixo) que mal pode ser percebido.

É nesse planeta que elaboramos nossas teses, medos e ambições. Somos seres minusculos diante da imensidão do espaço , vivemos confinados em um corpo finito, temporal e nos guiamos a partir da percepção absolutamente restrito de tempo e espaço. E o pior é que isso parece irrelevante para a maioria das pessoas que só se preocupa com o que vão comer hoje e assistir na TV a noite acreditando que sabem tudo o que precisam saber.

Que o texto sirva de inspiração para o ano que começa:

 

Vista de uma distância cósmica, a Terra não parece ter nenhum interesse especial.
Mas para nós é diferente.
Este pontinho solto no espaço
É o nosso lar.
Somos nós.
Nele, todos a quem você ama,
todos aqueles que você conhece,
todos de quem já ouviu falar,
todos os seres que já existiram,
viveram suas vidas.
Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento,
milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas,
todos os caçadores e saqueadores,
cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações,
cada rei e camponês,
cada casal jovem apaixonado,
cada mãe e pai,
cada criança esperançosa,
inventor e explorador,
cada professor de moral,
cada político corrupto,
cada superastro,
cada líder supremo,
cada santo e pecador de nossa história
viveram aqui,
neste grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.
Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores,
para que, na gloria do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos
de uma fração deste ponto.
Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto deste pixel
contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto,
o quão frequentes são seus desentendimentos,
o quão dispostos estão para matar uns aos outros,
e quão inflamados seus ódios.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância,
a desilusão de que temos uma posição privilegida no universo,
tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida.
O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante.
Em nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão,
não há nenhum indício de que, de algum outro mundo,
virá o socorro que nos salve de nós mesmos.

A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida.
Não há nenhum outro lugar, ao menos no futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar.
Para visitar, sim.
Para se estabelecer, ainda não.
Gostemos ou nao, a Terra é, por enquanto, o único lugar em que podemos viver.
Dizem que a astronomia é uma experiencia que forma o caráter e ensina a humildade.
Certamente não há melhor demonstração da tolice das vaidades humanas
Do que a imagem distante do nosso minúsculo mundo.
Para mim,
ela revela a responsabilidade de nos relacionarmos mais gentilmente uns com os outros,
para preservarmos e amarmos
este pálido ponto azul,
o único lar que conhecemos.