A consciência e a lei.

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Uma das coisas que mais me irritava como âncora da rádio trânsito em SP é quando um ouvinte ligava de dentro do carro, geralmente parado em algum mega congestionamento, para defender a ampliação dos dias do rodizio municipal de veiculos.

O que me deixava chateado não era o que ele defendia, mas o que lhe motivava:

– Porque você não deixou seu carro em casa hoje ?  eu perguntava

– Ah, porque tenho que trabalhar né. – respondia o ouvinte.

Então o rodízio não era para o bem da cidade. Era só um meio para retirar da sua frente os outros carros e deixar a rua livre para nosso amigo.

Ja percebeu que quanto menos consciência uma pessoa demonstra ter, mais legalista será? A proporção de um para outro é simetricamente proporcional.

O excesso de leis demanda tutelamento, obrigações, imposições necessárias onde só se obedece se houver punição.

Não faço o bem simplesmente porque é bom. Faço o bem para que o mal (punição) não me cobre.

Outro dia uma pessoa me dizia que o conceito de punição e medo que em geral as igrejas imputam sobre Deus é necessário a medida em que, sem freio, o “povão” perde a estribeira.

Será mesmo?  Por mais difícil e demorado que seja, prefiro caminhar pela via da conscientização; aquela que transforma o bem em bom.

Bem por culpa ou medo não é bom, é só mal com aparência de virtude.

Interiormente provoca o efeito contrário apesar de por fora confundir-se com justiça, altruismo, boa vonade ou preocupação com o próximo.

É por isso que em ambientes “santos” existe tanta gente doente e ambientes “sérios” tantos corruptos.

Se minha opção é andar pela lei -e não pela consciência- faço porque devo, sem pensar, questionar ou saber a razão: Respeito  porque sou obrigado e meu “pagamento” é não ser punido.

O problema é que nossa alma não aceita isso.

Interiormente, de um jeito ou de outro, sempre buscamos um sentido para as coisas que nunca é encontrado pela via da imposição.

Ambientes legalistas são fábricas de gente adoecida.

Exigir o aumento do rodízo (rigorosidade da lei) enquanto eu não deixo meu carro em casa (falta de consciência) é só um pequeno exemplo do quanto o legalismo faz mal.

Descansar na lei pode ser mais fácil a medida em que te acomoda, mas será que vale a pena?

Até que ponto você depende dela?

Saber o real valor das coisas, repensar suas prioridades, re-checar constantemente as motivações, entender porque faz ou deixa de fazer questionando se o teu caminho hoje é fruto de bom entendimento, isso é consciência.

Mentes consciêntes são pacificadas. Esses sabem que o bem basta em si.  O que vier além disso,tende a nos tornar dependentes de um sistema que até pode nos tornar respeitáveis e admirados, mas será só do lado de fora.

No entanto, no raio X da alma aparecerá o quanto ela envelheceu e se desgastou.

Pense nisso.