O dia em que entrevistei o padre Marcelo.

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O post abaixo me lembrou o dia em que entrevistei o padre Marcelo em uma rádio.

Ele vivia seu auge como pop star religioso e servia como instrumento da igreja católica para tentar barrar o crescimento da igreja evangélica. Coisa de mercado, sabe ?  padre20marcelo20-2033320-20nota20-201

Na porta da rádio, movimentação de fãs/fieis com fotos, fitinhas e carteiras de trabalho para serem abençoadas, enquanto adolescentes animadas imploravam por um autógrafo.

Entre os funcionários da rádio também houve agitação : Alguns enchiam garrafas pet de 2 litros com água para que ele “abençoasse”, outros traziam pedaços de papel para que ele assinasse.

Paciente e mecanicamente ele atendia a todos.

Conversamos por um tempo no ar e, quando acabou a entrevista, ele continuou no estúdio dando autógrafos e abençoando garrafas pet.

Enquanto tocava uma música não resisti e perguntei (fora do ar) com toda educação, obviamente : ” Padre, aqui entre nós, você não se incomoda com o jeito como as pessoas te tratam, não como um mensageiro, mas como a própria divindade? ”

A resposta um pouco irritada foi algo como : “Você já esteve em um hospital visitando pessoas doentes? é muito triste o que vemos lá. ”

Confesso que até hoje tento conectar a resposta com a pergunta, mas, ainda que não tenha conseguido exito, fiquei com aquela imagem de um homem sincero que escolheu ser mensageiro e foi devorado por uma industria que fabrica símbolos.

Ao longo da minha vida ,já vi acontecer algumas vezes e, apesar de não afirmar se é exatamente o caso do padre, pois só conversamos uma vez, sei de gente que começa cheio de sinceridade, mas depois vira refém da própria imagem.

Sem perceber, cede lugar a própria sombra e, ao invés da motivação inicial(seja ela qual for), passa a viver para trabalhar em favor da manutenção do que os outros vem : virou refém das projeções.

O pior é que isso vicia a alma e rouba a liberdade de ser você mesmo.

É por isso que, nos bastidores, vemos tanta gente triste e frustada.

De um lado zumbis mecanizados e do outro, gente histérica em busca de um olhar de seu deus.

O que eles não sabem é que isso tem prazo de validade.

Com o tempo, o ídolo que acreditava ser especial sai de cena em detrimento de um outro, construido pelas mesmas mãos que não aparecem, mas que são dos que mais ganham.

Em níveis diferentes, todos sofremos do mesmo mal e, muitas vezes, ao invés de personificar, projetamos nossos anseios em situações, lugares, bens….

Sofremos todos do mesmo mal: a necessidade de ícones que externalizem aquilo que não se vê, porque na verdade, tudo o que mais queremos não está no palco da Madonna nem na garrafa pet do Padre Marcelo, mas no lugar em que mais nos recusamos a olhar: dentro de cada um de nós.

Pense nisso.

2 comentários sobre “O dia em que entrevistei o padre Marcelo.

  1. A imagem do padre Marcelo e a historia que você contou me lembra muito o livro “O sobrevivente” do Chuck Palahniuk onde o único sobrevivente de uma seita religiosa vira um pop star, a reflexão do livro é mais ou menos essa que você está fazendo.

    E como as pessoas projetam em seus idolos uma imagem completamente idealizada e irreal.

  2. Talvez a resposta para a “conexão” entre sua pergunta e a resposta do padre Marcelo seja mais simples do que parece.

    Não é o que ele é, mas o que realiza em nome de Deus entre os fiéis que conta. Ele abraçou essa missão e tenta cumprí-la da melhor maneira, muitas vezes deixando de lado a própria saúde em prol dos outros.

    Basta entender que o valor verdadeiro está na OBRA realizada por ele e não na FAMA BARATA que muitos pseudo-jornalistas teimam em infringir-lhe.

    Tomando seu exemplo da benção “paciente e mecânica” das “garrafas pet” – Visivelmente, o autor do texto preferiu reparar na “alegoria” que acontecia a seus olhos, não o culpo, todos estamos limitados à percepção baseada em nossos próprios conhecimentos…

    Bom, enquadre esse outro ponto de vista: foi a FÉ que movia as pessoas a fazerem isso. Posso dizer uma “Fé Bruta”, de quem pede uma benção mais por instinto do que por conhecimento. Até o apresentador da MTV João Gordo (!) pediu a benção do padre após uma entrevista com o mesmo.

    Padre Marcelo Rossi é abençoado com um enorme carisma e uma pesada missão, claro, ele de maneira nenhuma se coloca como divindade, mas sim como instrumento de Jesus Cristo; como qualquer outro padre ou membro do clero.

    Ele busca levar consolo a quem precisa, usando de seus dons e meios de que dispõe, na verdade o trabalho dele atrai as pessoas de volta à reflexão do que realmente é importante, de volta à religiosidade. Daí em diante, cada qual decide o caminho a seguir.

    É essa aproximação do “povo” que incomoda a muitos!

    Para encerrar, uma ligeira suposição:

    Pedro (nome fictício), técnico de som, ao saber que o Padre Marcelo está no estúdio, enche uma garrafa pet e pede ao padre qua a abençoe. No final do espediente, ele volta para casa com esperança e fé de que, pelo poder de Jesus e por INTERSEÇÃO de seu servo, padre Marcelo, aquela água ajude a curar a doença de pele de sua filhinha de 2 anos.

    Bela historinha não?
    Poderia ser verdade, vai saber…

    Afinal, como podemos afirmar ou negar isso? Somente sabemos que os que fizeram isso foram movidos principalmente pela própria FÉ, nada mais.

    Att.

    José Dario Nunes Jr. – Comunicólogo e Produtor Editorial

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