Em brasilia, 19 horas.

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Parece que, pelo menos aqui no Brasil, não se discute que, por mais defeituoso que seja, o regime democrático ainda parece ser o mais adequado.
 
Ninguém questiona a necessidade de termos imprensa livre e instituições independentes.
 
O presidente Lula, que goza de uma enorme popularidade, tem um histórico de luta em favor da liberdade de manifestações, inclusive com as grandes paralisações promovidas pelo sindicado dos metalurgicos nos anos 70 e 80.
 
Felizmente o país é muito diferente da década de 30, quando o rádio ainda era o grande veículo de integração nacional e Getúlio Vargas instituiu o programa “A voz do Brasil”.
 
Mais de setenta anos depois, tempos de internet e acesso a informação, esse dinossauro lento e cansado continua sendo imposto goela abaixo dos brasileiros, fazendo com que Carlos Gomes se revire no tumulo todas as vezes que ouve sua belissima composição “O Guarani” como tema de abertura de tamanha arbitrariedade.
 
Quantas vezes, como âncora da rádio Sul América trânsito, tive que parar de prestar serviços a uma cidade caótica com indices beirando os 150km de congestionamento para colocar “A voz do Brasil” no ar.
 
É claro que tentativas por parte das rádios de flexibilizarem o horário de transmissão, propiciou liminares que permite ás beneficiadas colocarem o programa em outro horário.
 
Mas são só liminares, não concessões.
 
Enquanto o brasileiro parece ter se acostumado com essa descabida imposição federal, associações e proprietários de emissoras tentam virar o jogo.
 
João Lara Mesquita, ex diretor da rádio Eldorado, conta em seu livro “Eldorado, a rádio cidadã” parte de sua luta quase desumana na tentativa de convencimento de nossos queridos e dedicados deputados sobre a necessidade de mudança.
 
E não adianta os homens de Brasilia alegarem que “para o interior do Brasil o programa é importante”, pelo simples fato de que, nesses lugares, pouquissimos ouvem.
 
Outros argumentam que a manutenção da obrigatoriedade contrabalanceia o possivel partidarismo de emissoras, como se um jornal chapa branca uma hora por dia de fato fizesse esse contrapeso. E, se for por isso, porque só o rádio ?
 
Como se não bastassem as dificuldades que o veículo enfrenta diante do crescimento de novas mídias, temos que lidar com esse grande dinossauro que, principalmente nas grandes cidades, impede que os cidadãos tenham acesso a informação, justamente no horário de maior movimento.
 
O jornalista Eugenio Bucci, ex-presidente da RádioBras entre os anos de 2003 e 2006, foi um dos que, durante o exercicio da presidencia, tentou desobrigar a transmissão do programa.
 
Depois de muitos embates e saias justas, ele conta que na verdade quem gosta do programa e não admite mudanças é principalmente o chamado “baixo clero” do congresso e explica em seu livro ” Em Brasília 19 horas” porque não acredita que um dia isso vai mudar :
 
” Os deputados de menor destaque nos meios de comunicação acreditam, na média, que aparecer no nocticiário oficial obrigatório é vantajoso. Têm o programa como palanque que, na visão deles, faz parte das prerrogativas da função, à qual não pretendem renunciar…
…É para não contrariá-los que os governos evitam mexer no assunto. Não querem correr o risco de erodir o apoio parlamentar em nome do que chamam de “uma questão menor”. Com essa postura conformista, acabam por associar ao atraso da manutenção desse anacronismo que só sobrevive porque é tido como ferramenta de propaganda.
No que depender dessa combinação, em Brasília, 19 horas é para sempre.”
 
E o rádio que se lixe.