A volta.

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De repente as pessoas foram chegando.

 

Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta:

 

-Pelo menos não me incomodarei mais com ela.

 

Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….

 

Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto.  Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena…

 

Alguém segura sua mão:

 

– Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar. Ainda mais que os pensamentos não cessavam:

 

Porque será que consigo sentir a energia das pessoas ? Parece que, invisiveis, elas invadem o ar e cada particula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.

 

Ouço vozes, mas estou em silêncio.  Quanto mais quieto, mais me ouço…

 

Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada.

 

Se fecharam, é porque todos estão aqui- pensou- O que será que vão fazer depois ?

 

Que música é essa ? Parece vir do estacionamento…

 

Intrumento de corda, vozes…coral ? Deixe-me ouvir…

 

A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam alí, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo.

 

Quer dizer que nessas horas a gente ouve música…

 

Porque será que não percebo mais o tempo ? Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo : As árvores da rua,  mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta ! Ou será que nunca saíram daqui ?

 

De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto.

 

Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.

 

Ouve alguém soluçando mas isso não o detém:

 

É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.

 

O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem:

 

Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era- …essa música, eu conheço…

 

Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor. Neles, as músicas fluiam e se pareciam muito com a que ouvia agora.:

 

Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.

 

Não precisava abrir os olhos: ele via.

 

As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes.

 

Os pensamentos cessaram.

 

A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável.

 

Já não ouvia vozes.

 

Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante.

 

Uma incrivel sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.

 

As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço.

 

Não vê ninguém mas sente.

 

Agora tudo estava em paz.

 

Tinha voltado para casa.

Jorge Camargo.

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Sempre adorei música.

Ainda criança, lembro com nitidez eu mexendo no “3 em 1” do meu pai, sintonizando as rádios, procurando alguma para gravar.

Lembro das idas ao Mappin Itaim (agora Extra) com meu irmão para comprarmos discos.

Foi a música que me levou para o rádio, mas confesso que só encarei o rádio como profissão depois que já estava nele.

Antes, meu maior incentivo em estar lá era poder abrir o microfone e falar coisas legais para as pessoas.

Mesmo que aos dezesseis anos não costumamos ter muito a dizer, era bom estar lá.

Entre tanta gente do bem, conheci o Jorge Camargo.

Poeta acima da média, musico virtuoso, sensível a vida, daqueles que você não precisa de tempo para aprender a gostar.

Como aconteceu comigo, foi a música quem o levou até aquela rádio e, com o tempo, percebeu que estava no lugar errado.

Foi comigo que conversou quando sentiu que era hora de outros vôos e eu sabia que tinha razão. Pouco depois eu faria o mesmo e seguiriamos nossos caminhos: eu no rádio, ele na música.

De longe sempre tive notícias de seu excelente trabalho e, especialmente ontem, encontrei algumas de suas músicas na internet.

Descobri seu e-mail, lhe escrevi e fiquei contente em retomarmos contato.

Tenho descoberto que, mais do que nunca, devemos estar próximos de quem tem o mesmo espírito, e compartilha os mesmos sonhos.

Com o Jorge eu sei que é assim.

Na sequência duas músicas dele de presente para você. Uma fala de amor, outra de felicidade.

Veja, deixe seu dia ficar bom :

Jorge Camargo- Fale de amor

Jorge Camargo- A felicidade

Gabeira só ganha quando perde.

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Do blog do Noblat

A trajetória política de Gabeira é marcada por um extraordinário paradoxo: ele ganha quando perde. Para ser mais preciso: só ganha quando perde.

Perdeu para a ditadura, apesar de tê-la golpeado algumas vezes. Exilou-se. Mas ao cabo venceu porque a ditadura desmoronou e ele pode voltar ao país com fama de herói. Soube aproveitá-la para dar início a uma carreira política convencional. Coleciona quatro mandatos de deputado.

Gabeira perdeu para Severino Cavalcanti, na época presidente da Câmara dos Deputados. Não foi a ameaça feita por Gabeira de derrubá-lo que forçou Severino a renunciar ao cargo e depois ao mandato. Severino caiu porque um concessionário de restaurantes revelou que o subornara.

A queda de Severino acabou atribuída ao discurso moralizador de Gabeira. Por isso o episódio é explorado no horário de propaganda eleitoral do candidato.

Gabeira perdeu para Renan Calheiros, presidente do Senado. Renan foi acusado de ter usado dinheiro de um lobista de empreiteira para pagar despesas da ex-amante.

Aos safanões, Gabeira rompeu a barreira de agentes de segurança que impedia o acesso de deputados ao plenário do Senado. Cobrou dos senadores o voto aberto na sessão de julgamento de Renan. O voto foi fechado. Renan escapou à cassação. Mas Gabeira ganhou novamente porque estava, digamos assim, do lado do bem.

Antes de perder para depois ganhar de Severino e Renan, Gabeira perdera e ganhara do PT, partido pelo qual fora eleito em 2002.

Mal começou o governo Lula, ele se desentendeu com o partido, tomou um chá de cadeira de três horas do ministro José Dirceu, da Casa Civil, pediu as contas e voltou para o Partido Verde, que ajudara a fundar.

Saltou fora do PT pouco antes de o PT afundar no escândalo do mensalão e nos sucessivos escândalos que abalaram o primeiro governo Lula.

No imaginário popular, políticos tradicionais são aqueles que ganham eleições – para no momento seguinte começar a perder respeito e credibilidade.

Por antigo no epicentro da política fisiológica do país – a Câmara dos Deputados -, Gabeira poderia ser um político desse tipo. É justamente o contrário. Com uma vantagem: nem se parece com um político. E age como se não fosse.

Sua campanha para prefeito é o mais notável e eficiente exemplo de anti-campanha de um político anti-político.

Falta dinheiro para gastar com cartazes, folhetos e cabos eleitorais? Em cena, a campanha que não suja a cidade. Que outra vantagem tirar de uma campanha pobre? A transparência. Metam-se então gastos e nomes de doadores na internet.

O público está farto da troca de ataques entre candidatos? Sem ataques. Completado o tripé que sustenta o discurso de campanha: limpeza, transparência e delicadeza. Acrescentem: promessas zero, conceitos no lugar de propostas concretas e ótima música. Eis a receita Gabeira.

Para ser coerente com sua trajetória, Gabeira deveria perder a eleição do próximo domingo porque a essa altura já a ganhou. Quem imaginaria há dois meses que ele chegasse até aqui?” (…) 

Acrescento: Gabeira acreditou que a comunicação direta com o eleitor poderia levá-lo à vitória. Quase levou. Mas ao fim e ao cabo ganhou a política real. E o que é isso? Em resumo é a política de alianças, do loteamento futuro da máquina administrativa, dos gastos milionários, da propaganda massiva e das manobras sujas, às favas todos os escrúpulos.

– Você está disposto a pagar qualquer preço para vencer, eu não – disse Gabeira a Paes durante debate promovido pela Rede Bandeirantes de Televisão.

Acertou quanto a Paes. Acertou quanto a ele mesmo.

Gabeira sai desta eleição como o maior eleitor individual do Rio. Poderá ser candidato ao Senado em 2010. Poderá até mesmo disputar o governo. A política do Rio não passava por ele, um franco atirador. Passará doravante