Histórias: A noite em que São Paulo parou.

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A noite de quinta feira estava dificíl

O mapa da CET apontava congestionamentos localizados acima da média, o que indicava que provavelmente existiam pontos de alagamento na cidade.

Decidi me concentrar nas regiões mais cheias, especialmente as regiões sul, oeste e ABC.

Pedi para que a estagiária priorizasse as ligações de ouvintes porque era assim que teriamos mais condições de saber o que realmente estava acontecendo:

– Não consigo seguir adiante, tudo alagado !

– O carro da frente parou, não vai passar.

– Estou há quatro horas na mesma rua.

Relatos como esses vinham na sequência, indicando que a situação era pior do que imaginei, ainda por cima porque a chuva estava de volta, e aumentando.

A medida em que a noite avançava, o que antes era localizado foi se disseminando e cidade parou.

Dez da noite entraria um programa de músicas dos anos setenta e percebi que naquela condição não se justificaria parar de informar para tocar música.

No meio da correria, pedi para que a estagiária ligasse para o diretor pedindo autorização para não veicular o programa, visto que a cidade estava debaixo d´agua.

Faltavam quinze para as dez :

– Não sei. Me ligue novamente faltando um minuto para as dez para eu decidir.- foi o que o diretor disse ao telefone.

Preocupado prossegui meu trabalho e, faltando um para as dez, sem saber se o programa ia ou não, pedi para que a estagiaria ligasse novamente:

– Ele autorizou.- ela disse.

Aliviado, continuei priorizando o telefone e naquela hora , além de informar, minha preocupação era acalmar gente que estava há quatro, cinco, seis horas no carro.

Entre tantos casos, um me chamou a atenção :

– Estou com meu filho pequeno aqui sobre a ponte, com medo, sem saber o que fazer e fora do carro porque a água já entrou.

Era uma mãe aflita do outro lado da linha sem saber o que fazer.

Felizmente tinha muita gente me ouvindo e pedi para que outros ouvintes que estivessem por alí se aproximassem para que ela não se sentisse sozinho, visto que, além de tudo, tinha medo de ser assaltada.

Pesquisei o que ela poderia fazer para sair de lá e, depois de muias tentativas, achei um caminho.

As ligações não paravam e se aproximava de meia noite- fim do meu horário. Meia noite o computador “assumiria” e entraria a programação musical.

Decidi permanecer no ar e pedi novamente para a estagiária ligar para o editor chefe comunicando.

Ele entendeu que era necessário e continuamos.

Como se não bastassem as ligações, recebo a informação de que as linhas da CPTM pararam e os passageiros se acumulavam nas plataformas e vagões sem saber o que estava contecendo.

Agora, além dos carros parados, eram os trens e ninguém para nos dar informações. Tentamos a CPTM, CET e tudo mais e nada.

Pessoas ligavam de dentro dos vagões sem saber o que estava acontecendo e eu tentava acalma-las.

Ja passava da uma da manhã.

– Saí do trabalho as cinco da tarde, não cheguei em casa ainda !

– Minha esposa ta me esperando na rua há horas, não consigo chegar!

Um a um, cada ouvinte trazia seu problema e eu tentava uma solução.

A estagiária queria ir embora, a CPTM não atendia, e muitas vezes me via sozinho no estúdio tendo que operar a mesa, falar com o ouvinte no ar e operar o telefone também.

Duas e meia da manhã.

A cidade começa a se acalmar, a água diminuiu, os grandes focos de congestionamento também, no entanto o problema da CPTM continua.

Cinco para as três da manhã, recebo ligação de um ouvinte dentro do trem que as linhas voltaram.

Outros ligam confirmando.

Trens andando, cidade destravada, três da manhã, decido encerrar meu trabalho.

Na semana seguinte, encontro na recepção a mulher que estava com criança no carro junto com marido e o filho. Ela levava um bolo e agradecimento pela ajuda.

Eu via a criança sorrindo, a mulher em paz e tive minha recompensa.

Foi um tempo incrivel, uma grande lição do poder que temos ao falar no microfone. Não conheço os casos, nem a história de cada um que estava ouvindo mas sei que naquela noite pudemos fazer a diferença.

Mentes como mídias.

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Tenho acompanhado e desfrutado com muita empolgação os novos rumos da comunicação.

 

Ao contrário do que muitos colegas de mídias tradicionais pensam, vejo no advento da internet uma grande possibilidade na democratização da informação.

 

No entanto, ainda é muito cedo para tentarmos qualquer tipo de previsão em relação ao que será daqui alguns anos.

 

A maioria dos comentários que ouço, ou são óbvios demais e falam somente sobre o próximo passo ou me parecem tentativas de determinadas classes ou grupos de preservarem seu status desqualificando o que veio para ficar.

 

Quando me refiro a comentários “óbvios demais”,falo daqueles que insistem que em breve todos terão acesso a web e isso irá revolucionar, não só as mídias, como os conteúdos.

 

É claro que vai e já está acontecendo.

 

O fato é que a velocidade em que as coisas estão acontecendo, sugerem que mesmo a internet como conhecemos ficará para trás.

 

Quer um exemplo ? A seguir um trecho do lívro “ A Nova Mídia”(pgs 21 e 22) do professor Wilson Dizard Jr: “ …pesquisadores vêm buscado caminhos para ampliar o processo de expansão de informação humana através da implantação de microchips no cérebro. Itiel Dror, professor-titular do Laboratório de Neurociência Cognitiva da Universidade Miami de Ohio, assinala: O cérebro é um instrumento de processar informação. Pode ser expandido para aumentar a capacidade de processamento ou memória exatamente como você pode acrescentar RAM ou atualizar seu CPU em um computador pessoal. O cérebro também produz uma saída que é transmitida via comando motor. Portanto, não há problemas-teoricamente- em conectar máqunas diretamente ao cérebro de modo que comandos de saída se dirijam diretamente para o computador….”

 

Se hoje nos impressionamos com blogs e sites, espere para ver como será daqui a alguns anos.

 

A medida em que a internet democratizar por completo a informação e relativizar o poder das grandes redes, acontecerão movimentos no sentido de recuperar terreno.

 

Passado o primeio baque e os inevitáveis prejuizos, a tentativa será novamente a de monopolizar a informação, mas dessa vez, com a ajuda da alta tecnologia, em um ambiente muito mais secreto e perigoso do que o atual.

 

Nossas mentes serão as mídias e isso terá implicações com a maneira que consumimos , nos relacionamos com as instituições financeiras e as informações.

 

Como vai ser exatamente eu não sei. No entanto o que sei é que tem muito dinheiro e interesses em jogo para simplesmente deixar que tudo acabe e pronto.

 

Em nome da segurança e da comodidade, “privacidade” será palavra do passado e, conhecendo seus gostos, preferências e segredos, terão acesso a você de uma maneira quase arrebatadora.

 

Portanto, quanto mais falarem sobre “medos” e necessidade de proteger-nos, lembre-se disso.

 

No começo do texto eu demonstrava minha empolgação com as mudanças atuais,  mas isso não me impede de olhar lá na frente e perceber que será inevitável.

 

O estudo do professor Itiel Dror é embrionário se compararmos com teorias já avançadas em relação as possibilidades de acesso as mentes, afinal de contas, a palavra-pensamento tem origem onde ninguém acessa, no íntimo do ser, no entanto, chega ao sistema neurológico do pensar e, a partir daí, feito o som que corresponde ao signficado imaginado.

 

São impulsos elétricos que, como uma onde de rádio por exemplo,podem ser interpretados. O que virá depois dessa constatação é imprevisivel.

 

Quem viver verá.

 

Ás vezes as coisas mudam rápido demais.

 

 

Leia: https://flaviosiqueira.wordpress.com/2008/10/09/a-pior-prisaovisoes-sobre-o-futuro/

Evitar as vitórias sobre o chefe.

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Mais uma do Baltasar Gracián ( essa eu deveria ter lido antes !*rs):

 

Toda derrota é odiosa e, se é sobre o chefe, ou é tola ou é fatal.

 

 A superioridade sempre foi odiada, mais ainda pelos superiores. O sábio deve ocultar as vantagens mais comuns, assim como se disfarça a beleza com o desalinho.

 

É possível encontrar quem aceite ser superado em sucesso e em caráter, mas ninguém quer ceder em inteligência, muito menos um superior.

 

É este o maior dos atributos e por isso qualquer crime contra ele será de lesa-majestade.

 

Quem é poderoso quer sê-lo no mais importante.

 

Os chefes gostam de ser ajudados, mas não superados. Ao aconselhá-los, é melhor que o aviso pareça uma lembrança de algo esquecido, em vez de ser luz do que não se alcançou.

 

Os astros, com acerto, nos ensinam essa sutileza, pois ainda que sendo filhos brilhantes nunca competem com o brilho do Sol.