Mais sobre a imprensa no sequestro de Santo André.

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Confesso que não queria mais tocar no assunto. Mas parece que o caso do sequestro em Santo André está rendendo assunto, inclusive quando se trata do comportamento da imprensa.

Agora foi a vez do ex comandante do Bope ( Batalhão de Operações Policiais Especiais), o sociólogo Rodrigo Pimentel criticar a postura de algumas emissoras e apresentadores, entre eles Sonia Abrão, Record e Rede TV!.

A declaração foi feita para o site “Terra Magazine” :

“Foi irresponsável, infantil e criminoso o que a Sonia Abrão fez. Eu lamento não ter falado isso na frente dela. Eu gostaria de ter falado isso para ela e para os telespectadores da Record e da RedeTV!. O que ela fez foi sem a menor avaliação. Tanto que, num primeiro momento, ele (o repórter Luiz Guerra) tentou enganar o Lindemberg, dizendo-se amigo da família. E depois ele tentou ser negociador, convencer ele a se entregar sem conhecer os argumentos técnicos usados para isso. O que o capitão Giovaninni (negociador da Polícia Militar) falava para o Lindemberg a todo momento é que, até aquele momento, o crime que ele havia praticado era muito pequeno. Esse é o argumento técnico, funciona quase sempre. ‘Olha meu amigo, até agora você não matou ninguém, até agora só colocou essas pessoas sob constrangimento, sua pena vai ser muito pequena…’. Isso funciona mesmo. E a Sonia Abrão não tem esse argumento, a Record também não.”

Mais sobre o assunto: https://flaviosiqueira.wordpress.com/2008/10/18/sequestro-em-santo-andre-espetaculo-do-horror/

Jesus fast food mandando Spams.

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Primeiro a foto de Jesus com lágrimas nos olhos.

Depois o texto diz mais ou menos assim : “Quando Ele se entregou pensava em você. Ele não teve vergonha e você terá ? Se tiver vergonha delete esse e-mail, mas se não tiver, mande esse e-mail para todos do seu contato , colocando no assunto ” eu nao me envergonho de Jesus”  porque uma graça acontecerá.”

Adoro quebrar essas correntes.

Com todo o respeito a quem manda, será mesmo que agora até Jesus entrou na era dos spams ?

Será que ele fica monitorando quem mandou um e-mail “Esse pode abençoar” e quem não mandou ? “Ihh, deixa esse de fora, quebrou a corrente !”

Não é só “Jesus” que manda spams. Anjinhos, santos, nossa senhora Aparecida, a lista é longa.

Como conceber que, por incrivel que pareça, ainda tem milhares de pessoas que, “por via das dúvidas”, se impressionam e com medo de não receberem tal ” graça” enviam o spam ?

Sinceramente não consigo acreditar que alguém se comove ao receber tal e-mail que, além de tudo, é de péssimo gosto. Sempre aquela imagem de Jesus chorando, lágrima no canto dos olhos, deprimido, enquanto, com olhar vazio, vê o planeta Terra.

No entanto essa atitude demonstra uma caracteristica tão comum em nosso comportamento :Quanto mais “fast” melhor a “food”. Agimos sempre na superficialidade das coisas sendo que, quanto menos comprometimento eu tiver, melhor será.

Enviar um spam com a foto de Jesus já me faz sentir em dia com minha fé, de modo que não precisarei me incomodar com meu coração. É mais fácil cumprir ritos, por mais banais que sejam, do que olhar para dentro.

Rotule com simbolos, capriche na embalagem, dê uma pitada de emoção e pronto: as pessoas virão sem sequer refletir no que está por trás da mensagem.

Na ânsia pela “graça”, vale qualquer coisa !  Do esvaziamento dos bolsos ao emburrecimento do individuo passando pelos spams.

É só uma bobeirinha ? Pode ser, mas não deixa de refletir a maneira como pensamos.

Da próxima vez que receber uma corrente dessas, por favor quebre.

Afinal de contas, entre sua caixa de enviados e seu coração, tenho certeza que a opção sempre é pelo coração.

Lembre-se: suas atitudes, por menores que sejam, revelam quem você é.

História: Salvando uma vida pela rádio.

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Faço rádio desde os meus dezesseis anos.

De lá pra cá, já trabalhei em todos os estilos e fiz quase tudo o que você pode imaginar.

É claro que isso rende boas histórias, mas confesso que a mais significativa para mim aconteceu no ano passado.

Na rádio Sul América trânsito eu ficava no ar durante seis horas (depois de um tempo diminuiu para cinco) falando sem parar.

Além de operar a mesa de som, cobrar envolvimento dos estagiários, procurar informações sobre o trânsito, ler notícias, testemunhais, também falava com os ouvintes no ar.

Eram cinquenta, sessenta ouvintes por hora, quase todos com perguntas, alguns irritados, outros perdidos e não havia nenhuma triagem a não ser um” seu nome?” ” um momento que vai falar ao vivo”. Era isso e esperar para entrar no ar.

Com o tempo você aprende a identificar no “alô” do ouvinte qual categoria ele pertence: dos irritados que vão te culpar pelo trânsito, os bem humorados que vão elogiar a rádio, os perdidos que não sabem como chegar …

Certa manhã, ao chamar o ouvinte, uma voz desanimada do outro lado e eu perguntei:

– O que acontece, está triste ?

– Não, com dor.

– Ah…jogou bola a noite toda ontem né?- ainda binquei.

– Bem que poderia ser isso, mas estou realmente passando mal.

Percebi que a coisa poderia ser seria e continuei:

– O que está acontecendo contigo ?

– Saí de casa em direção ao interior, estou na Anhanguera mas comecei a passar muito mal e não tenho condições de prosseguir viajem, preciso ir urgentemente ao hospital.

Imediatamente olhei para o mapa da CET e a cidade estava congestionadíssima. Eu tinha que dar um bom caminho para um ouvinte passando mal, sem saber para qual hospital seria mais indicado.

Se ele esperasse um retorno e voltasse para a Marginal demoraria muito. O jeio era o Rodoanel.

– O que você acha de seguir ao hospital São Luiz do Morumbi ? – perguntei.

– Perfeito.

Como ele ainda não tinha passado o acesso para o Rodoanel, não precisaria fazer retorno e, de lá, sairia na Francisco Morato e depois , cortando pelo Morumbi, teria condições de chegar a tempo.

Indiquei o caminho e pedi para a estagiaria ligar para ele de tempo em tempo, não só porque se acontecesse algo teriamos como localizá-lo e pedir socorro, como também para que ele permanecesse acordado já que não sabia do que se tratava.

Enquanto isso eu repetia no ar a todo instante dicas como :

– Para o ouvinte colaborador Paulo, vejo que a francisco morato continua boa, mas complica um pouco depois do shopping butantã, saia antes, siga pela jorge joão saad, vá com calma, tudo vai dar certo.

O tempo passou e não conseguiamos mais contato com ele.

Tempos depois, recebemos a ligação da sua filha.

Ela dizia que o pai estava com um quadro de meningite e ao chegar no hospital desmaiou e foi prontamente internado.  Era coisa séria e os médicos diziam que , se demorasse um pouco mais, o desfecho seria imprevisivel.

Quando soube do que ocorreu, fiquei feliz por ter ajudado.

Nessa hora você esquece os problemas e sente que está no lugar certo.

Depois o Paulo foi na rádio me esperar para agradecer e desde então nos tornamos amigos.

Ainda hoje eventualmente trocamos e-mails e é bom saber que está tudo bem com ele.

Coincidentemente, fiquei sabendo depois que a sua filha trabalhava em uma das TVS da Band e certo dia a encontrei na saída da Band.

Por se tratar se uma história única, fiz questão de gravar seu depoimento:

Histórias como essa dão sentido a profissão.

De tudo o que vivi lá, é disse que sinto falta.

Faz com que você testemunhe o quanto falar ao microfone pode interferir no dia a dia das pessoas.

Nunca vou esquecer o caso do Paulo e de como pude naquela manhã influenciar na vida dele e de sua família.

Aqui uma edição feita pela rádio logo depois do ocorrido:

Existem outras histórias que ainda comentarei aqui no blog.

Cotas para negros ?

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Ainda sobre preconceito, confesso que nunca entendi a lógica do sistema de cotas que facilita o acesso aos negros nas universidades.

Se a intenção é garantir o direito a formação universitária a todos, porque a referência aos negros ?

Todos sabemos que o que impede as pessoas a inclusão em uma universidade, não é a cor da pele, mas a falta de uma boa base educacional e, quem sofre mais com isso são os pobres.

É claro que na rede pública de ensino existem muitos professores guerreiros que, apesar do baixíssimo salário e condições precárias, dão tudo de si consciêntes de seus papeis como educadores. No entanto, apesar disso, é fato que os governos não investem no ensino como deveriam a ponto de, se os pais tem condições, colocam seus filhos em escolas particulares.

Aí começa a desigualdade.

Enquanto os que podem se prepararão para a universidade ao longo da vida, quem depende da rede pública terá mais dificuldade.

Facilitar o ingresso ao ensino superior simplesmente por declarar-se negro, além de não levar em consideração a pluralidade de raças em nosso país, indica que, se não for por ajuda da lei, os negros ficarão de fora.

Argumente o que quiser mas no fim cairá no mesmo tema : preconceito.

Enquanto levarmos nosso problemas desse jeito e não atacarmos o foco, seremos meios cidadãos, com meios direitos, baseado sempre em meias verdades.

Preconceito.

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Como pode alguém antecipar a conduta de outro, baseado apenas na cor de sua pele ?

Será que meço o caráter do próximo se sua preferência sexual for diferente da minha ?

A raça, peso, idade ou limitação física, faz com que a outra pessoa seja menor do que eu ?

Nas palavras, atitudes, olhares, opiniões, o pré conceito está estabelecido. Há os que negam a existência e, entre esses o sentimento é maior a medida que está tão enraízado que não conseguem identificá-lo.

Para eles é tão normal a ponto de não perceberem que existe.

Infelizmente em algumas regiões do país a situação é mais perceptível. Aqui no Sul é um desses lugares.

Obviamente não estou generalizando e tem muita gente que não pactua com isso, no entanto confesso que nunca ouvi tanto a expressão “esta negrada” como aqui.

Ontem um amigo confessou que está com certa dificuldade em contratar uma funcionária para o seu departamento porque a que lhe pareceu mais apta é negra: teve que ouvir da superiora, quase em tom de brincadeira “vais contratar mesmo a negrinha ? ”

Que tipo de gente pode se sentir superior por conta da cor da pele ?

Seria eu superior a você porque minha unha é mais clara ? E se a cor dos meus olhos for diferente dos seus serei mais inteligente ? A cor do cabelo altera os neurônios ? Então porque seria com a cor da pele ?

É claro que o preconceito não fica por aí.

Muitas vezes, cansados do tratamento que recebem, as próprias vítimas acabam respondendo ao preconceito com mais preconceito.

É o caso de grupos de negros que fazem questão de acentuar a “guerra” entre “raças” ou como a lei contra a homofobia , que na verdade tenta resolver por imposição algo que acontece em outro nível.

É triste.

Sempre que possivel, passe um scanner nos seus conceitos. Reavalie como tem agido e até que forma tem, lá no íntimo, reforçado conceitos tão absurdos e burros.

Somos todos iguais e aquele que se sente superior por sua cor, raça, religião, opção sexual ou qualquer outro argumento que menospreze os outros, lembre-se que aí está sua confissão de pequenes.

Que não seja assim com você. Afinal de contas, um dia você ainda pode precisar de quem hoje menospreza.

Jogar Limpo.

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Baltasar Gracián, um dos grande escritores do barroco espanhol, viveu entre 1601 e 1658.

” A arte da prudência” foi escrito em 1647 com a intenção de ofercer aos seus contemporâneos uma espécie de guia que lhes ajudasse a enfrentar os embates do dia a dia.

No trecho a seguir, fica claro que sua obra ainda é muito atual:

 

O homem prudende pode ser obrigado a lutar, mas não com jogo sujo: cada um deve agir como quem é e não como o obrigam.

Na competição, a elegância é plausível :deve-se lutar não somente com poder, mas também com descência. Vencer com a maldade não é vitória, mas rendição. A generosidade sempre foi superior.

O homem de bem nunca usa armas proibidas. Como, por exemplo, usar os conhecimentos sobre o amigo com quem brigamos para alimentar o ódio recém nascido.

Não se deve usar a confiança para a vingança.

Tudo o que cheira a traição contamina o bom nome. Nas pessoas de espírito elevado, qualquer átomo de baixeza é muito estranho. É melhor pensar que, se a elegância, a generosidade e a fidelidade se perdessem no mundo, deveriam ser procuradas em seu peito.