Machado de Assis: O tempo e a liberdade.

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UMA VEZ, ACONTECEU que iam falando das vantagens da riqueza.

– Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade da terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros homens.

A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.

O  preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto não atendia aos dous cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente.

Era homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça, tinha já uma cor inverossímil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo caso, a serenidade do espírito.

Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. A passarem por ele, o preto tirou respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição e ocupação que dantes.

– Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, que o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muito cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazível e útil.

A rigor, o tempo corre do mesmo modo, que o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muito cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazível e útil.

Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.

Machado de Assis em “Helena” – Livraria Garnier, Rio de Janeiro, p.49-50.

Comunicação em transformação.

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Vivemos em tempo de profundas transformações.

Da política, economia, espiritualidade a nossa concepção de bom e mau, certo e errado.

Parte dessas mudanças, são potencializadas por uma grande alteração : a maneira como nos comunicamos.

Talvez não esteja claro para a maioria , mas essa é uma fase de profundas alterações a começar pelas mídias.

“Mídias” são nada mais do que “meios” para que determinado conteúdo seja acessivel.

Você está lendo esse texto (conteúdo) através da mídia (internet/blog), mas a internet não é o conteúdo.

Ele poderia estar em uma folha de papel, em um áudio em mídia eletronica ou simplesmente sendo dito a você através de um bate papo.

Antes ouviamos músicas em LP e hoje em MP3. Nesse meio tempo as cassetes, cds, mds…muitos já quase não existem, mas o conteúdo – música- ainda está firme e forte apesar da quebradeira de gravadoras, lojas de cds e rádios.

O fato de, por muitas décadas, dependermos de determinados meios para termos acesso ao conteúdo fez com que virassemos reféns dos veículos quando buscávamos informação ou entretenimento,por exemplo.

Isso dava – e ainda dá- muito poder a pouca gente.

Hoje tudo está mudando rápido demais.

Profissionais de comunicação mais anteados, sabem que o fim do rádio ou da TV ,do jeito que hoje conhecemos, é irreversivel.

Não que o conteúdo produzido por essas mídias terminará, mas, cada vez mais, as pessoas terão acesso ao seu próprio conteúdo, sem a necessidade de que ele seja fornecido conforme os padrões, horários e formatos das mídias convencionais.

É só questão de -pouco- tempo.

Em breve, todos terão acesso a tudo, de forma que a segmentação é inevitável.

Esse tipo de transformação, mexe com o jeito que olhamos a vida.

Se nossas referências são formuladas a partir das nossas informações, o acesso a informação do meu jeito, no meu tempo e com muito mais conteúdo disponível, tende a acentuar alguns tipos de observadores : Os críticos a medida em que julgam baseados em muita informação. Os céticos : que , de tão expostos, deixam de acreditar e os conformados : esses mantém o padrão hoje imposto , principalmente pela TV, onde recebo, aceito e não questiono.

Tudo está acontecendo rápido demais e em breve veremos o quanto essas mudanças impactarão nos meios de comunicação, na economia, política e, sobretudo, nas pessoas.

Por enquanto, cabe ao público discernir entre tantas coisas o tipo de conteúdo que mais lhe agrada e aos comunicadores- incluo os tradicionais e os novos como blogueiros por ex- a consciência de, mais do que nunca, é preciso conhecimento e talento para se destacar em meio a tantas opções.

E, saiba, o que temos visto é só a ponta do iceberg.

Que venham as mudanças !

Paulo Coelho.

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A não ser em algumas colunas em jornal ou textos na internet, eu nunca tinha lido nada do Paulo Coelho.

Para mim, ele parecia um ex-roqueiro que achou uma fórmula que caiu no agrado do povo e, a custa de muito marketing, virou fenômeno de vendas.

No entanto não gosto de ter opinião formada sobre nada que não conheço e, também por adorar biografias, comprei o livro ” O Mago” onde Fernando Morais conta em 610 páginas a história do : “..menino que nasceu morto, flertou com o suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucinoar o rock brasileiro,redescobriu a fé e se transformou em um dos escritores mais lidos do mundo…”

O que chama atenção é o tamanho da exposição em que o autor se mostra ao biógrafo, sem omitir fatos que muita gente esqueceria.   

Histórias em que Paulo Coelho age com fraqueza, trai, mente e desliza, como todos nós, é contextualizada em sua incrivel busca pelo sucesso.

Mesmo não sendo seu leitor, passei a respeitá-lo pela coragem com que se mostrou, além de, por mais desastrada que tenha sido em boa parte, sua tragetória me pareceu ter sido feita com muita honestidade.

Terminei a leitura disposto a entende-lo melhor e comprei seu último livro : “O vencedor está só”.

Ainda estou no começo mas, a impressão é que Paulo realmente não busca um estilo erudito, não investe em grandes dilemas filosóficos e muitas vezes esbarra no óbvio mas, sinceramente, isso é ruim?

Seria muito chato se todos os autores fossem intelectuais inacessiveis, cheios de dilemas existenciais, com linguagem incompreensivel para a maior parte da população.

Paulo Coelho conseguiu a proeza de captar a alma do cidadão medio (do mundo inteiro) e traduzir em livros, bem escritos, diga-se de passagem. Tanto é que seu sucesso é estrondoso em todos os continentes.

Foi uma grata surpresa.

Fiz questão de lhe dizer isso e mandei um mail. Parte da resposta: “em minhas obras procuro expressar minhas buscas, lições, questionamentos e, se isso faz bem aos outros, porque não ?”

Ás vezes, para mudar de opinião, é preciso conhecer sobre o que se fala.

Quando virei cantor.

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No fim de 2005 eu era locutor da Band FM em São Paulo.

Foi nessa época que gravamos o tema de fim de ano. Geralmente esses temas são gravados por cantores conhecidos mas, naquele ano, ao invés do cantor desejar ao ouvinte feliz ano novo em nome da rádio a ideia foi que as felicitações viessem de quem está no ar todos os dias.

Deu trabalho ! Mas o resultado ficou bom:

Sem medo.

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Criar filhos não é fácil.

 

Não é questão de ensinar “certo” ou “errado’, “faça” ou “não faça”, mas é forjar nele a consciência de até onde pode ir.

 

  que a maioria de nós, crescemos sob a batuta do medo.

 

O medo sempre foi a moeda de negocição na hora de dizer “ coma ! Se não…” “Diga ! Se não…..” , “Pare com isso ! Se não…”  E de “ se não” em “se não” fomos incutindo a idéia da punição e, por consequência, da culpa.

 

Na nossa tabela de valores, só é punido quem é culpado( pelo menos em tese) de forma que, se fui punido, no fundo,devo ser merecedor.

 

Esse merecimento, que nasce da culpa, nos transforma em “pagãos”.

 

Barganhamos com Deus e os homens uma maneira de sermos aceitos, através de performances, sacrificios ou demonstrações de merecimento.

 

Agora, pense comigo, para que o outro perceba que eu mereço, minha virtude deve ser exposta.  Se eu não colocar pra fora, no outdoor dos meus feitos, ninguém vai ver e, se ninguém ver, não mostrarei que mereço o reconhecimento, o amor, cuidado, aplausos, elogios, embalos, sorrisos, oportunidades.

 

Só que tem uma coisa:  quando expomos  para que todos vejam, invariavelmente começamos a nos comparar. Em maior ou menor grau, o outro passa a ser minha referência mesmo quando o que está sob análise não é fruto de manufatura exata.

 

Se me comparo, quero ser melhor e a busca por ser melhor, gera competição e , quando é assim, toda busca pela evolução vira um fim em si mesmo; sem proveito de fato.

 

Como sair desse ciclo ?

 

Abrindo mão da culpa em busca da consciência.

 

Não ter culpa não é o mesmo de ser inconsequente ou egoísta, pelo contrário, sem culpa é saber que meu caminho é único e ninguém pode fazê-lo por mim. É entender que já não importa o que os outros pensam porque o que vale é o que eu penso sobre mim.

 

Sem outdoor, mas indoor…para dentro, não para fora.

 

Quem anda culpado vive em busca da aparência, quem anda sem culpa sabe que o que vale é o coração.

 

Desafiador é gerar esse caráter em nossos filhos.

 

É saber dizer não, impor limites, mas sem culpa.

 

Outro dia perguntei pro meu filho: 

 

– O que você pode fazer que me faça deixar de te amar ?

 

– Quando eu não me comporto ou faço algo muito errado ?- ele arriscou.

 

– Quando você age assim, eu fico triste mas, mesmo triste, nunca deixo de te amar. Você pode me fazer deixar de te amar da mesma maneira que pode me fazer te amar: não fazendo nada. Nada que você faça me fará te amar mais, assim como nada de errado que você fizer me fará amar menos. É assim que o papai é contigo e é assim que Deus é com a gente.

 

Ele fica quieto, vem pertinho e me abraça.

 

Não há mais o que dizer.