Mais perto de casa.

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Ainda lembro como se fosse hoje:

Eu tinha mais ou menos 6 anos e morava em um apartamento com dois andares lá na Vila Olimpia, em São Paulo.

Embaixo a sala, cozinha, lavanderia e lavabo, enquanto que os quartos e banheiros ficavam no andar de cima.

Desci para beber água na cozinha e, na volta, subindo em direção aos quartos tive uma forte percepção : ” Cada degrau que deixo para trás, signfica um segundo a menos em minha vida.”

Por mais que aos seis anos você não tenha clara percepção do que isso representa, lembro-me que senti um arrepio em pensar que ao chegar no topo da escada estaria- ainda que poucos segundos- mais perto do fim.

Ao longo da vida esses pensamentos sempre me acompanharam.

Não que isso me deprima ou desmotive, pelo contrário, me reforça a sensação de que o corpo é só um estágio.

Sempre que vejo uma pessoa com mais de oitenta anos, penso como será que alguém que sabe que não verá tantas passagens de ano pela frente, se sente ? Como manter expectativas em relação a vida, quando sei que ela não vai durar mais tanto tempo.

Aí, me lembro que, aos oito ou oitenta, considerando que só existe o hoje, tanto faz se vou viver mais oitenta anos ou oito minutos.

Condicionamos nossas referências ao tempo e espaço e, baseados nisso, damos a vida prazo de validade com começo meio e fim.

Acreditamos que, quando sou novo tenho muito tempo e, na velhice, pouco me resta.

Pelo fato de ninguém saber exatamente como é “do outro lado”, temendo o desconhecido, preferimos não pensar na morte acreditando que ela é o fim.

Não me peça argumentos lógicos mas sinto que estamos no caminho errado.

É questão de percepção.

Se aos seis anos sentia que cada degrau representava segundos a menos, hoje sinto como se cada minuto me enchesse de algo que, ao invés de subtrair; multiplica.

Na infância eu temia o desconhecido mas, na vida adulta, começo a encontrar sentido até no vazio.

A sensação de que viveremos sempre, conflitado com a realidade da morte, só me incentiva a pensar que, dentro de cada um de nós, vive um pouco da eternidade.

Talvez por isso os velhinhos ainda façam planos.

Perdemos amigos, parentes, conhecidos e, ainda assim acreditamos na vida e buscamos uma fórmula que nos faça esquecer que um dia, assim como a conhecemos, ela acabará.

Não acho que acabe.

Estranhamente penso que, se arrancarem minhas pernas e braços, posso os enterrar mas, continuarei por aqui.

Se sofrer graves lesões no meu cérebro, talvez perca a capacidade de me comunicar, mas ainda sim estarei aqui.

Se posso viver sem meus membros e com cérebro danificado, o que eu sou de verdade ?

Não sou corpo.

Consigo ouvir minha voz mesmo quando não abro a boca e tenho a capacidade de sentir, mesmo quando não estou prestando atenção em nada.

Percebo intenções, me identifico com conceitos, me deixo levar por pulsões coletivas sem mesmo entender porque.

Ainda que cheio de limitações em relação as percepções da vida, tenho noção do que é o amor, a compaixão, doação, entrega…

Todos os dia encontro gente que nunca vi e lido com mundos diferentes,mas, mesmo assim, reconheço no outro um igual e, por mais distante que seja, consigo me identificar com suas dores e anseios.

Parece que algo nos interliga.

Escrevo sobre o que vejo e, de alguma maneira, encontro eco em você, que está aqui lendo.

São pequenos sinais, sutilezas e coincidencias que evidenciam que em mim tem um pouco de você e, sem você em mim, nada existiria.

Em cada mente um mundo e em cada mundo, canais de comunicação que nos permitem sermos um.

Identifico nossa unidade e entendo que, sendo assim, nunca acabaremos.

Não somos corpo, nem água, sangue, terra ou ar. Preciso do corpo, respiro e me alimento do mundo, mas, não me encerro aqui.

Sou um pouco do que penso, falo e vivo, de forma que, em cada pegada, deixo um pouco de mim.

Não sei se serão minutos, anos ou décadas mas, um dia teremos a resposta.

Por enquanto, fico com a sensação de que em cada degrau fico um pouquinho mais perto de casa.

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