Boca de rua.

Padrão

Já escrevi sobre a armadura que vestimos para lidar com a miséria que vem das ruas.

Me incluo entre os que fecham os vidros do carro como tentativa de me distanciar daquilo que “não é problema meu”.

Desde que cheguei em Porto Alegre, me espantei com a quantidade de pedintes nos faróis e confesso que para lidar com isso, faço como a maioria: os evito.

Dou desculpas a mim mesmo dizendo que “se eu der, eles aumentarão”, que ” se atender a todos que me pedem, terei que andar com notas de cem no bolso todos os dias” e assim, queimo argumentos que todos damos.

Apesar de entender que é um problema complicado e dar esmolas nos faróis esta longe de ser a solução, estou entre os que se sentem impotentes diante da visivel falência da nossa sociedade.

Mas ontem foi diferente.

Como todos os dias fui abordado no farol e, como sempre, não dei nada. Disse não antes que pudesse perceber que aquele rapaz no vidro do meu carro não estava me pedindo, mas vendendo um jornal.

Ele já tinha ido embora quando,intrigado buzinei, pedi que voltasse e me explicasse que jornal era aquele:

– É o “Boca de rua”.

– Quem faz ? – perguntei

– Nós mesmos ! A gente escreve e a mesma gráfica do Zero Hora imprime. Custa um real.- respondeu.

Peguei a carteira correndo e comprei o jornal.

Entre artigos, poemas e matérias escritas por moradores de rua, destaco um:

“Talvez quem tem uma boa casa não saiba o que é passar uma noite na rua. É um sofrimento: o frio, a fome, a violência, o medo aumentam. Enquanto para o cidadão comum o dia é mais tenso que a noite, para o morador de rua a noite é mais tensa que o dia. É difícil um morador de rua dormir de noite. Durante o dia, as ruas cheias de trabalhadores, estudantes e policiais inibem a liberdade do morador de rua: de dia é mais fácil cuidade de carros, parar nas praças, ás vezes até conversar com as pessoas. Durante a noite, até o consumo de drogas e álcool é mais liberal, e mesmo as pessoas de classe média usuárias de drogas abusam do morador de rua. Todo morador de rua já viu uma agressão a alguém que estava dormindo por um cara da classe média.”

Lendo o jornal, percebi um pouco mais do lado humano daqueles que, de dentro dos nossos carros, nem olhamos.

Não tenho conselhos para lidar com um problema que é de todos, mas, independente de qualquer coisa, me preocupo quando começo a achar tudo normal.

Não é.

Aquelas pessoas sujas e ameaçadoras nos faróis, geralmente foram bebês sem cuidados e crianças sofridas.

Todos temos um pouco de responsabilidade.

O farol abriu e saí feliz pensando que, pelo menos aqueles tem no jornal uma possibilidade de trabalho, sustento e, sobretudo, se fazer ouvir.

Vou comprar outras edições, não por pena ou como esmola, mas por reconhecer que por trás de cada texto, tem um pouquinho de um semelhante fazendo de tudo para simplesmente sobreviver.

2 comentários sobre “Boca de rua.

  1. Sabe Flávio, e o que mais me impressiona nisso tudo é o quão essa situação que parece tão distante, é próxima da realidade de cada um.
    Grande parte dessas pessoas um dia tiveram família e casa como nós, e um fato, uma situação, um aconteimento inesperado as levaram a essa subcondição.
    É triste, e além de tudo fica o alerta para cada um de nós.
    Grande abraço

  2. leni

    Isso é uma coisa que sempre me incomodou. Tentar entender o que se passa na cabeça de um morador de rua. São pessoas como nós, com medos, esperanças ou desesperanças,frio,fome… Há quem diga que eles não pensam nada, pois já perderam a percpção da realidade! Não concordo…e continuo pensando e sofrendo por eles. Gostaria muito de ter uma fórmula mágica pra poder tirá-los dessa situação…afinal, são pais e mães, como nós, que não conseguem agasalhar nem alimentar seus filhos, da maneira como fazemos com os nossos…
    Enquanto não podemos fazer muito, vamos torcer pra q pessoas como vc, q tem acesso a mídia, “bote a boca no trombone” e proteste por
    nós, quem sabe as coisa começam a mudar?
    Talvez essa seja uma missão a cumprir.

    Continue falando e mostrando a realidade da vida, para aqueles que insistem em ignorar.

    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s