Mario Quintana.

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Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
…e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

Texto extraído do livro “Nova Antologia Poética“, Editora Globo – São Paulo, 1998, pág. 105.

A pior prisão:visões sobre o futuro.

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Flavinho, qual a pior prisão ? Ele aponta a cabeça e, com ar sério diz : a da mente.

Meu filho ainda tem cinco anos e confesso que não sei como será o mundo quando ele tiver minha idade.

Uns dizem que será catastrófico, outros um paraíso e tem aqueles que se preparam para seu breve fim.

Sinceramente não sei em qual corrente acreditar, mas, com um pouco de atenção, é possível discernir que caminho temos tomado e como isso, invariavelmente, refletirá no futuro:

– Se por um lado a humanidade fica cada vez mais avessa as guerras*(ainda bem!), por outro territorializam o que era para ser de todos e travam batalhas psicológicas e mentais por tudo. Olhando para esse cenário, sinto que as guerras do futuro serão muito mais na mente do que no corpo, o que é mais perigoso.

– Parece que estamos ficando cansados das respostas científicas, da necessidade da chancela da ciência para avalizar o que quer que seja, e caminhamos na direção do misticismo. Rituais, fórmulas, penitencias, fazem parte de crenças orientais a igrejas evangélicas, de modo que , se por um lado começamos a abrir janelas na percepção do sobrenatural, por outro não sei se estamos preparados para tudo o que pode vir.

– Nossa concepção de matéria, tempo e espaço está, desde Eistein, se relativizando. Da física quântica a energia escalar, fala-se sobre mudanças na curvatura do tempo e acesso a possiveis dimensões paralelas, fazendo com o que hoje nos parece sobretanural, se transforme em explicável, acessivel e, pior, manipulável.

– Em nome da segurança e da paz mundial, o conhecimento humando caminhará a largos passos na direção do controle das almas. Todos terão acesso a tudo, fazendo com que essa exposição troque facilidades por individualidade.

– Esqueça termos como “online” ou “offline” porque o “off” não funcionará. Tudo será on, o tempo todo, e a plataforma geradora de conteúdo e informações, sejam reais ou virtuais, será cada indivíduo que, por sua vez, terá acesso ao outro e assim por diante. Seremos uma grande comunidade, conectados e lidando com tudo – de bom e de ruim- que isso implicará.

– Em pouco tempo, ficará claro para os que ainda não perceberam que o melhor caminho para o domínio não é o medo, mas a admiração. Nossos medos serão usados para fabricarem heróis (olhe para os EUA e veja isso claramente) que nos salvarão em troca da nossa liberdade. Essa será a moeda de troca.

– Será muito dificil diferenciar o bom do mau, o certo do errado de forma que esses conceitos se relativizarão ainda mais. Lidaremos com as ambiguidades como justificativas para pagarmos preços as vezes caros demais.

– Vai ser a era do políticamente correto**. Onde o sim e o não perdem espaço para o talvez, desde que no “talvez”, convenientemente eu não me envolva.

– Sem envolvimento, não haverá responsabilidades e, sem responsabilidades, transfiro aos “heróis” a incumbencia de fazer minha parte.

A pior prisão é na mente, diz o Flavinho. Que , aos trinta e tres, ele não se esqueça que, aos cinco, seu velho e maluco pai já martelava que, não no corpo, mas na mente está a chave para nossas verdadeiras prisões.

Quem viver, em pouco tempo, verá.

 

* Veja o video : “A guerra” – aqui no blog.

** Leia : “O politicamente correto” entre os arquivos de Agosto, aqui no blog.

Sem os limites do tempo.

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Se você pudesse ver sua vida inteira sem os limites do tempo, talvez entendesse que nada aconteceu por acaso.

Veria que as angústias e medos não precisavam ter te paralisado a medida em que foram criadas por você mesmo.

Olhando para trás, ficaria claro que cada situação, sejam as boas ou ruins, conspiravam em favor da sua construção pessoal, para que deixasse de ser criança e virasse alguém.

O que parecia sem explicação, teria encaixe no que viria lá na frente, e você nem percebeu.

Como um tapete, cheio de alinhavamentos e desvios na parte de baixo justifica o trabalho do outro lado, daria para ver que nada foi por acaso.

Dos desvios mais simples as mudanças mais complicadas, possibilidades de amadurecer.

Vendo a vida sem os limites do tempo, entenderia que foi cuidado, ensinado e amparado em amor, mesmo quando tudo ao redor estava escuro.

Aprenderia a ficar quieto quando ao redor só tem barulho, escutar sua própria voz interior que sussura e não grita, observaria melhor quanta gente apareceu para te ajudar e você desprezou, valorizaria atitudes que pareciam banais, mas estavam lá para fazer toda a diferença, se chocaria ao perceber quantas oportunidades teve.

Se não fossem os limites do tempo, veria sua vida como um todo e, em tudo, veria que nunca esteve sozinho e a porta sempre esteve aberta.

* Veja em videos o video “eu sou”.

Boca de rua.

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Já escrevi sobre a armadura que vestimos para lidar com a miséria que vem das ruas.

Me incluo entre os que fecham os vidros do carro como tentativa de me distanciar daquilo que “não é problema meu”.

Desde que cheguei em Porto Alegre, me espantei com a quantidade de pedintes nos faróis e confesso que para lidar com isso, faço como a maioria: os evito.

Dou desculpas a mim mesmo dizendo que “se eu der, eles aumentarão”, que ” se atender a todos que me pedem, terei que andar com notas de cem no bolso todos os dias” e assim, queimo argumentos que todos damos.

Apesar de entender que é um problema complicado e dar esmolas nos faróis esta longe de ser a solução, estou entre os que se sentem impotentes diante da visivel falência da nossa sociedade.

Mas ontem foi diferente.

Como todos os dias fui abordado no farol e, como sempre, não dei nada. Disse não antes que pudesse perceber que aquele rapaz no vidro do meu carro não estava me pedindo, mas vendendo um jornal.

Ele já tinha ido embora quando,intrigado buzinei, pedi que voltasse e me explicasse que jornal era aquele:

– É o “Boca de rua”.

– Quem faz ? – perguntei

– Nós mesmos ! A gente escreve e a mesma gráfica do Zero Hora imprime. Custa um real.- respondeu.

Peguei a carteira correndo e comprei o jornal.

Entre artigos, poemas e matérias escritas por moradores de rua, destaco um:

“Talvez quem tem uma boa casa não saiba o que é passar uma noite na rua. É um sofrimento: o frio, a fome, a violência, o medo aumentam. Enquanto para o cidadão comum o dia é mais tenso que a noite, para o morador de rua a noite é mais tensa que o dia. É difícil um morador de rua dormir de noite. Durante o dia, as ruas cheias de trabalhadores, estudantes e policiais inibem a liberdade do morador de rua: de dia é mais fácil cuidade de carros, parar nas praças, ás vezes até conversar com as pessoas. Durante a noite, até o consumo de drogas e álcool é mais liberal, e mesmo as pessoas de classe média usuárias de drogas abusam do morador de rua. Todo morador de rua já viu uma agressão a alguém que estava dormindo por um cara da classe média.”

Lendo o jornal, percebi um pouco mais do lado humano daqueles que, de dentro dos nossos carros, nem olhamos.

Não tenho conselhos para lidar com um problema que é de todos, mas, independente de qualquer coisa, me preocupo quando começo a achar tudo normal.

Não é.

Aquelas pessoas sujas e ameaçadoras nos faróis, geralmente foram bebês sem cuidados e crianças sofridas.

Todos temos um pouco de responsabilidade.

O farol abriu e saí feliz pensando que, pelo menos aqueles tem no jornal uma possibilidade de trabalho, sustento e, sobretudo, se fazer ouvir.

Vou comprar outras edições, não por pena ou como esmola, mas por reconhecer que por trás de cada texto, tem um pouquinho de um semelhante fazendo de tudo para simplesmente sobreviver.

Mais perto de casa.

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Ainda lembro como se fosse hoje:

Eu tinha mais ou menos 6 anos e morava em um apartamento com dois andares lá na Vila Olimpia, em São Paulo.

Embaixo a sala, cozinha, lavanderia e lavabo, enquanto que os quartos e banheiros ficavam no andar de cima.

Desci para beber água na cozinha e, na volta, subindo em direção aos quartos tive uma forte percepção : ” Cada degrau que deixo para trás, signfica um segundo a menos em minha vida.”

Por mais que aos seis anos você não tenha clara percepção do que isso representa, lembro-me que senti um arrepio em pensar que ao chegar no topo da escada estaria- ainda que poucos segundos- mais perto do fim.

Ao longo da vida esses pensamentos sempre me acompanharam.

Não que isso me deprima ou desmotive, pelo contrário, me reforça a sensação de que o corpo é só um estágio.

Sempre que vejo uma pessoa com mais de oitenta anos, penso como será que alguém que sabe que não verá tantas passagens de ano pela frente, se sente ? Como manter expectativas em relação a vida, quando sei que ela não vai durar mais tanto tempo.

Aí, me lembro que, aos oito ou oitenta, considerando que só existe o hoje, tanto faz se vou viver mais oitenta anos ou oito minutos.

Condicionamos nossas referências ao tempo e espaço e, baseados nisso, damos a vida prazo de validade com começo meio e fim.

Acreditamos que, quando sou novo tenho muito tempo e, na velhice, pouco me resta.

Pelo fato de ninguém saber exatamente como é “do outro lado”, temendo o desconhecido, preferimos não pensar na morte acreditando que ela é o fim.

Não me peça argumentos lógicos mas sinto que estamos no caminho errado.

É questão de percepção.

Se aos seis anos sentia que cada degrau representava segundos a menos, hoje sinto como se cada minuto me enchesse de algo que, ao invés de subtrair; multiplica.

Na infância eu temia o desconhecido mas, na vida adulta, começo a encontrar sentido até no vazio.

A sensação de que viveremos sempre, conflitado com a realidade da morte, só me incentiva a pensar que, dentro de cada um de nós, vive um pouco da eternidade.

Talvez por isso os velhinhos ainda façam planos.

Perdemos amigos, parentes, conhecidos e, ainda assim acreditamos na vida e buscamos uma fórmula que nos faça esquecer que um dia, assim como a conhecemos, ela acabará.

Não acho que acabe.

Estranhamente penso que, se arrancarem minhas pernas e braços, posso os enterrar mas, continuarei por aqui.

Se sofrer graves lesões no meu cérebro, talvez perca a capacidade de me comunicar, mas ainda sim estarei aqui.

Se posso viver sem meus membros e com cérebro danificado, o que eu sou de verdade ?

Não sou corpo.

Consigo ouvir minha voz mesmo quando não abro a boca e tenho a capacidade de sentir, mesmo quando não estou prestando atenção em nada.

Percebo intenções, me identifico com conceitos, me deixo levar por pulsões coletivas sem mesmo entender porque.

Ainda que cheio de limitações em relação as percepções da vida, tenho noção do que é o amor, a compaixão, doação, entrega…

Todos os dia encontro gente que nunca vi e lido com mundos diferentes,mas, mesmo assim, reconheço no outro um igual e, por mais distante que seja, consigo me identificar com suas dores e anseios.

Parece que algo nos interliga.

Escrevo sobre o que vejo e, de alguma maneira, encontro eco em você, que está aqui lendo.

São pequenos sinais, sutilezas e coincidencias que evidenciam que em mim tem um pouco de você e, sem você em mim, nada existiria.

Em cada mente um mundo e em cada mundo, canais de comunicação que nos permitem sermos um.

Identifico nossa unidade e entendo que, sendo assim, nunca acabaremos.

Não somos corpo, nem água, sangue, terra ou ar. Preciso do corpo, respiro e me alimento do mundo, mas, não me encerro aqui.

Sou um pouco do que penso, falo e vivo, de forma que, em cada pegada, deixo um pouco de mim.

Não sei se serão minutos, anos ou décadas mas, um dia teremos a resposta.

Por enquanto, fico com a sensação de que em cada degrau fico um pouquinho mais perto de casa.

Quando as explicações terminam.

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Já reparou como sempre queremos ter respostas para tudo ?

Conheço gente que fala sobre o que desconhece só para não aparentar ignorância. Dão explicações, inventam histórias, fazem conexões absolutamente impensáveis para no fim dizer: eu sei !

Quando agimos assim desconsideramos que, entre tantas variáveis, existe aquela que podemos chamar de mistério.

O mistério não é um fenômeno sem explicação. É mistério porque não sei explicar e, se não sei, fico calado entendendo que no silêncio aprendo, apreendo.

Somos condicionados a somente confiarmos naquilo que vemos, no que satisfaz nossos sentidos, sem parar pra pensar que nem tudo é o que parece ser.

Se não sei explicar, sinto que na vida existem mais mistérios do que dizem e que, de alguma maneira, eles se interconectam a ponto de, em determinado momento, me fazer ver que fazem sentido.

Em absolutamente tudo- por pior que em primeiro momento pareça- existem lições.

Cabe a mim aceitar os mistérios da vida como sinais, extrair deles lições e trabalhar para que minha percepção vá além do que meus olhos podem ver.

Talvez o que você está lendo aqui seja um convite para aumentar sua percepção da vida.

Em tudo há mistérios a medida em que tudo fala.

Nem sempre entendo mas pelo menos sei que as coisas não acontecem por acaso e, se é assim, em cada curva, tropeço, desvio, descuido, problema, surpresa, perda, desencontro e obstáculo, encontro a possibilidade de lidar com o mistério que, apesar de não saber explicar, sinto e fico quieto. Afinal, quem sabe não estou tendo mais uma oportunidade para me transformar em alguém melhor ?

Que tal parar de tentar dar respostas para tudo e deixar que o tempo fale ?