Palavras vazias.

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Não consigo gostar de frases prontas.

Quando eu apresentava o Love Songs, pedia pra que os ouvintes não mandassem os típicos ” se amar é viver, vivo porque amo você.”

Não gosto de nada que seja plástico, sem vida. Que busque recursos estéticos ou emocionais para enganar quem vê, apelando para o sentimentalismo.

Nunca vi graça em crianças “novos talentos” que, com jeito, roupas ou trejeitos de adulto tentam convencer a todos de que realmente são especiais.

A graça está na naturalidade, por mais que o natural esteja fora do que se convenciona ideal.

Vivemos no mundo das aparências, onde a forma vale mais do que o conteúdo.

Os políticos sabem muito bem disso. Melhor do que uma propósta coerente, é uma discurso emocional, com voz embargada e , de preferencia, com crianças em volta.

Nós gostamos disso.

Todos os dias recebo “orações”, “poemas” ou histórias “inspiradoras” onde só consigo ver clichês e chavões com muito mel e açucar e fico pensando como tem gente que acha bonito !

Não é questão de forma, muito pelo contrário, é a falta de inspiração;  vento na embalagem de cristal.

Em compensação, quando é de verdade pode ser feio, anti estético, sem regras, pé nem cabeça, mas se vier do coração, virá carregado de beleza.

Sem o conhecimento das técnicas as pessoas só abrem a boca e deixam as palavras sairem.

Sem esperar pela aprovação, entregam o coração sem medo de mostrar o que tem na alma.

Os olhos mostram o que tem no coração, a boca fala sobre o que enche a alma; o som é sempre bom quando vem do íntimo.

O que sai das suas produções diárias, revela o que tem dentro de você.

É por isso que nos revelamos em tudo o que gostamos.

No jeito, nos toques, gostos, conceitos,leveza ou dureza; nas palavras, olhares, sentidos e direções, tem muito de você em tudo o que faz.  É por isso que só os vazios é que gostam de “fast food emocional”, pois lá não tem nada além de palavras.

E, palavras por palavras, prefiro as que vem do coração mesmo que não sejam belas. Até porque, quando são fruto da real produção da alma, carregam beleza natural e involuntária, daquelas que estão em tudo o que é bom e verdadeiro.

Porque amo a vida.

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Do meu amigo Ricardo Gondim:

Amo a vida porque as cores me fascinam, os gênios me intrigam, as poetisas me seduzem, os santos me quebrantam, os justos me desafiam, os solidários me estimulam.

Amo a vida porque os sabores me esfomeiam, os silêncios me atraem, os mistérios me intrigam, os horizontes me instigam.

Amo a vida porque as mulheres me encantam, os altruístas me humilham, os sábios me instruem, os artistas me animam.
 
Amo a vida porque não espero o previsível, não aceito a manipulação dos espertos e  não convivo com o domínio dos poderosos. Acolho o insólito e enfrento o traumático para não fugir da realidade da dor.  Se evito as atrocidades é para nunca afeiçoar-me com o mal.

Amo a vida porque sofro com angústias que não são minhas e abrigo felicidades alheias. Sou paradoxal, salto como a corça e me entoco como a lebre, rujo como o leão e danço como o colibri. Aprendi que posso orvalhar o papel com as lágrimas da poesia e encharcar a camisa com o suor dos ideais.

Amo a vida porque tento entupir o ralo por onde podem descer os poucos dias de minha vida banal. Dissimulo, não quero  ver-me consumido com ódios que exigem tanta atenção. Caço as memórias para não deixá-las se esfumaçarem. Comparo-me com os amigos que envelheceram – Meu Deus, eles se desgastaram mais do que eu! Disponho-me a pagar o preço da longevidade. Não invejo o monumento ao soldado desconhecido que recebeu uma coroa de flores do imperador. Não desejo a sorte dos Camelots, John Kennedy, Che Guevara, James Dean, Lady Diana – todos morreram cedo.

Amo a vida porque engasgo com o semblante do noivo no instante em que a porta da igreja se abre para a amada. Emociono-me com o café que incensa a manhã pueril. Ouço a canção da menina desafinada como de uma soprano erudita. Leio o bilhete do presidiário como um tratado filosófico. Acolho as razões da avó como verdades absolutas.

Amo a vida porque perdi a pressa. Desisti das onipotências, abri mão da perfeição e comecei a perceber que Alguém me ama sem que precise provar nada.

LHC, a “máquina de Deus”.

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Há algumas semanas a imprensa mundial destacou uma experiência feita na Suiça com o acelerador de partículas.

Muita mística ronda o que tem sido classificado por alguns como a experiência científica do século ou a “maquina de Deus” como notícias de aparecimento de OVNIS na região ou possibilidade da criação de buracos negros que engoliriam a Terra.

O objetivo da experiência era lançar partículas quase a velocidade da luz em rota de colizão para que elas se partam, permitindo o estudo da natureza da matéria.

O fato é que certamente o homem caminha na direção de desvendar conceitos até então envoltos em mistério.

A questão é : Será que nossa evolução humana acompanha a científica ?

Estamos falando de algo que mexe com o intestino da  matéria e que pode alterar um sistema conectado de modo muito mais radical com o todo do elemento da matéria do que sequer imaginamos.

Se especulações sobre mundos paralelos e sinais de luzes nos céus já não estão mais restritos a ambientes esotéricos, o que podemos esperar a medida em que a tecnologia ajuda o homem a chegar no intangivel ?

Estamos mexendo com o tempo (ja relativizado por Eisten) e tocando na curvatura que possibilita a abertura de janelas paralelas de onde tudo pode sair.

É o homem comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal sem saber que tipo de gosto a fruta tem.

A cada dia nos aproximamos de portas que nos permitirão acesso ao que hoje classificamos como espiritual e note que não me refiro a nenhum tipo de experiência mística, de seitas ou grupos esotéricos.

Condicionados a seu tempo e conhecimento, cada um olha para cima e espera por um sinal, sem saber que estamos mexendo com algo muito mais sério.

Não são só as geleirdas dos icebergs ou o mar do Atlantico, algo tem mudado na estrutura do que hoje conhecemos como tempo e espaço.

Viver nesses dias implica sobretudo na necessidade de discernimento.

Reconheça em seu coração a simplicidade e aquiete sua alma porque os tempos são instáveis.

Sinais nos céus e na terra precedem a relativização do absoluto que sustenta nossa sociedade, por isso, a necessidade de andar com a consciencia pacificada como antídoto ao que virá.

As pesquisas continuam, o homem já sabe que existe muito mais entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia e cabe a cada um de nós cuidar dos nossos corações.

Afinal de contas, é só com sabedoria que teremos tranquilidade e paz de espírito para caminhar em dias de homens pequenos com grandes brinquedos.

Quando as portas se fecham.

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Enquanto caminhamos, portas se abrem e se fecham diante de nós.

É assim com todo mundo.

Quem nunca teve a sensação de que após uma porta ter sido fechada tudo ficou perdido ?

Mas aí o tempo passa, outras se abrem e você percebe que o fechamento daquela te ajudou a caminhar e chegar até a próxima.

Fatalidade ou oportunidade ? É uma questão de escolha.

O sol nasce igualmente para todos e, por mais que partamos de pontos diferentes, todos tem suas oportunidades na vida.

Saber identificá-las pode parecer mais difícil do que de fato é.

Quando nos apequenamos diante das situações acreditando que mesmo inconscientemente merecemos estar alí, fica dificil perceber que em tudo existe uma explicação.

Nossas vidas são reflexos de escolhas e posturas que tomamos em determinados momentos.

Se escolhas erradas tem o poder de causar destruição, por que não seria o mesmo, só que na condição inversa, com as escolhas certas ?

O problema é que escolhas erradas tendem a nos viciar, a medida que despertam em nós sentimentos como auto piedade, medo, preguiça ou covardia, até chegar ao ponto onde acho que é normal sofrer e, já que é assim, me transformo em credor da humanidade.

O próximo passo é a mágoa que se instala como vitimização.

É nessa hora, quando o tratamento deve ser mais radical, que as portas começam a se fechar para que você perceba que com o coração quebrantado e o espírito humilde fica mais fácil identificar as outras que abrirão.

Você pode demorar muito para perceber, mas quando uma porta se fecha, outra sempre abre.

A percepção disso lhe desperta para uma outra realidade onde preguiça, pessimismo, arrogancia ou mágoa não tem espaço.

Se uma porta se fechou, você agirá como quem age diante de uma fatalidade ou oportunidade ?

Talvez seja hora de repensar seus caminhos e com toda a sinceridade repensar se teus passos ao longo da vida te conduziram para onde você sonhava.

Sempre é tempo de mudar.

Felizes os que buscam a sabedoria e entendem que, entre portas fechadas e abertas, existem lições e auxilio para todo aquele que realmente quer, afinal de contas, seu caminho é você quem faz.

Entenda que sofrimento não deve ser aceito como merecimento, uma espécie de carma que lhe pune, castiga e humilha sem explicação aparente.

É como aquela “mulher de malandro ” que no ditado popular diz: ” não sei porque estou batento mas você sabe porque está apanhando”.

O pior disso é quando, por mais que nos incomode, aceitamos o mal a medida em que não reagimos diante dele.

Aceito a chicotada porque devo merecer, se a porta fechou só me resta chorar porque a vida é ingrata, se uma oportunidade já não é, vou ficar quieto porque eu nunca conseguiria mesmo.

E assim, de tropeço em tropeço, seguem alimentados somente com o consolo de que “pelo menos todos tem pena de mim”.

Não importa sua idade ou quanto tempo a dor se instalou. Você está vivo e enquanto vive pode alterar sua história.

Que oportunidade perdida para aqueles que não percebem isso !

Reaja, esmurre, chore, xingue, se revolte, mude absolutamente tudo, mas, deixe de aceitar que portas se fechem sem entrar nas que abrem o tempo todo.

Sempre há uma chance ! O que você está fazendo com as suas ?

Pense nisso.

Lições na noite do leopardo.

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Hoje, depois de assistir a uma apresentação do Flavinho na escola,já no carro, percebemos que eu tinha perdido a camera digital.

Retornei, não só pelo valor material, mas, principalmente porque lá estava o registro de um fim de tarde muito especial onde meu filho era o “Leopardo”.

A última vez que eu tinha visto a camera foi no banheiro infantil onde, depois do evento, fui ajudá-lo a tirar a fantasia e se trocar. Foi pra lá que segui.

Encontrei uma senhora limpando o corredor. Simpática, negra, gordinha, aproximadamente sessenta anos, percebeu que eu procurava algo e perguntou :

– Algum problema meu filho ?

– Agora a pouco me dei conta que perdi minha camera e acho que a deixei por aqui. A senhora viu alguma coisa ? – Perguntei.

– Não vi não, mas tente olhar de novo. Limpei parte do banheiro a pouco e, pra ser sincera, não reparei.

Olhei, vi atrás do balcão, na pia e nada.

Agradeci e saí pra ver se tinha deixado cair no estacionamento. Ela veio atrás:

– Quem sabe você não sobe até a secretaria ? Quando encontram algo é pra lá que levam. Venha ! Eu vou com você.

Subimos e nada.

Agradeci novamente a boa vontade e voltei pensando em remexer no carro, olhar no chão, refazer meus caminhos…Confesso que as vezes sou distraído e não seria nenhuma surpresa que a camera estivesse em algum lugar que eu já tivesse olhado.

A senhora desceu comigo e demonstrava preocupação:

– Poxa, meu filho. Vamos perguntar para os seguranças !

– Já perguntei- respondi resignado- e eles não viram nada.

– Ai meu Deus…que triste isso, e se você ver de novo no carro, porta mala…sei lá, olha seus bolsos…- ela demonstrava mais preocupação do que eu.

– Já vi no carro, bolsos…mas me lembro que foi no banheiro que vi a camera pela última vez, a senhora se incomoda de abrir de novo pra eu ver ? – perguntei sabendo que naquela hora os banheiros estavam trancados.

Não sei se ela estava com medo de virar suspeita já que, depois que saí do banheiro foi ela quem entrou, sei que tem gente que gosta de acusar, colocar a culpa em quem está disponível :

– Talvez eu tenha me confundido. Posso ter deixado cair em algum lugar, de repente alguém achou e guardou, uma hora aparece. – Era mais uma tentativa de tranquilizá-la do que necessariamente uma esperança.

Quando estávamos para entrar no banheiro, a Lu chegou e começou a ajudar a procurar.

Olhamos, olhamos e, quando estávamos indo ela diz :

– Olha a camera pendurada na torneira !

Quando fui trocar o Flavinho deixei a camera lá e, (não disse que sou distraido?)tinha passado sem ver.

– Louvado seja Deus !- exclamou a senhora visivelmente emocionada.

Abraçou a Lu, sem graça veio até mim e me abraçou também :

– Ganhei o dia ! – ela dizia- Fiquei faceira agora ,que bom, que alegria, bom fim de semana pra vocês !

Saí feliz por ter encontrado a camera, mas sobretudo grato por perceber como ainda tem gente do bem.

Não era medo de ser acusada ou qualquer tipo de bajulação. Era alegria genuina de uma senhora sexagenaria que, na noite de sexta, enquanto limpava banheiros, parou tudo o que fazia para ajudar um cara esquecido a procurar sua camera digital.

Naquela hora meu problema virou dela e, minha alegria, explodiu triplicada nela que estava visivelmente emocionada.

Saí com a camera e uma lição: Palavras, filosofia, demonstrações de fé ou sabedoria, cara de santo e voz mansa ficam minúsculos diante de pequenas atitudes de amor ao próximo que, através de uma preocupação, pode fazer toda a diferença.

Dentro do meu carro , eu pensava naquela senhora que, provavelmente, pegaria seu ônibus e chegaria em casa feliz sem saber direito porque.

Se bem que o mais importante certamente ela sabe: a felicidade está nas pequenas coisas.

Ela está mais perto de ser feliz.