Musica.

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Relendo o blog me deparei com esse artigo escrito em 2009. Foi no tempo em que cheguei em Porto Alegre e me reacostumava a outro ritmo.

O bom em ler textos escritos pela gente em outros momentos é que eles nos soam como novidade. No meu caso, passo a ser mais um leitor e acabo absorvendo o que eles dizem.

No rádio de novo, preciso rele-lo com certa periodicidade para que não me perca do bem que a música sempre me trouxe.

O texto é o seguinte:

Sempre gostei de música.

Antes de imaginar que um dia eu seria locutor de rádio, foi a música quem me atraiu.

Quarto escuro, luzes apagadas, mente distante….música.

Com o rádio ligado, esperava com o pause, play e rec acionados para, ao som da música preferida, disparar minha fitinha k7 a gravar.

Ia ao Mappin Itaim em São Paulo com meu irmão comprar discos e aquilo era muito bom.

Quando comecei no rádio, ainda em 1991, o LP era usado. O bom do disco é que você quase “pega” a música, escolhe a faixa, o lado…Às vezes, depois de sair do ar, ia a discoteca, pegava um disco, encontrava um estúdio vazio e ficava lá, ouvindo…

O tempo passou, a tecnologia mudou, andei por diversas emissoras, vários estilos e a música foi virando elemento de trabalho.

Se antes eu tocava rock, depois axé, eletronico, pagode ou jazz, ficava dificil ser muito crítico.

Profissional tem que ser assim, dizem.

Musica foi virando a hora de beber água, da preparação da vinheta, da busca do próximo texto, de atender ao telefone…

Aí você vai trabalhar de madrugada.

 Poucas profissões são mais solitárias do que a do locutor que fica nas madrugadas no ar falando, brincando, criando, enquanto a maioria dorme.

Rádio escura, segurança dormindo e você lá: falando, sorrindo…quantos ouvindo?

Nessas horas a gente buscava alguma coisa  pra fazer : Jogo de paciência depois internet, livros…

Quando você sai do ar não quer mais ouvir música nenhuma sob o risco de não conseguir convencer a mente que agora é hora de descansar.

O resultado é que chega a hora em que a paciencia para ouvir música termina, a não ser profissionalmente.

No rádio do carro noticias ou “monitoramento profissional” dos brecks, colegas, vinhetas, estratégias das concorrentes, de tal forma que, quando entra a música, a gente muda o dial.

Faz pouco mais de dois mêses que não abro um microfone de rádio. Faz poucas semanas que voltei a ouvir música.

Impressionante, mas agora consigo parar, prestar atenção na letra, deixar a música falar.

Acho que eu estava precisando disso.

Sem obrigação ou espirito crítico, só me deixar levar…ir para onde a mente quiser.

E, saiba, isso é bom.

Mario Quintana.

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A Arte de Ler
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.

A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa… e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

A Voz
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Ars Longa
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.

Biografia  
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua… E continuaram a pisar em cima dele.

Cartaz para uma feira do livro
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Citação
De um autor inglês do saudoso século XIX: “O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente.”

Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: “A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância.”

Contradições
… mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.

Das Escolas
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.

Destino Atroz
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.

Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Dos Livros
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.

Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.

Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.

Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha… Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.

Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: “Quem cospe para o céu, na cara lhe cai”. Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.

O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos…

Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços… Oh! tenham paciência, velhinhas… A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.

Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.

Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.

Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.


Pensamentos extraídos do livro “
Do Caderno H“, Editora Globo – Porto Alegre, 1973, págs. diversas.

Cada fase um rosto.

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Descobri um site onde você pode, a partir de uma foto sua, alterar sua imagem passeando entre as décadas.

Começa na decada de 50 e vai até o início do ano 2.000.

O tom antigo das fotos, combinado com vestuário,cabelos, óculos, aparatos, além da trilha sonora que ambienta cada fase, são garantia de diversão.

Na foto ao lado eu com cara de anos 90. Que tal ? rs

O endereço do site é : http://yearbookyourself.com/

Boa diversão !

No começo.

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Qual sua primeira lembrança?

Já tentou viajar por sua mente até resgatar o primeiro registro consciente de qualquer coisa ?

Determinados cheiros, sons ou imagens , podem ser portas que resgatam algumas memórias, então, como podemos permanecer atentos ?

Quando abrimos os olhos e somos apresentados ao mundo, nada sabemos.

Nossas reações são, quase todas, instintivas e nossos gestos buscam o aconchego e a proteção.

Sair de um local quente e acolhedor, onde todas as nossas necessidade são supridas, para a claridade e mudança de temperatura pode ser assustador: Vozes, colos, toques, dores…tudo diferente.

Você lembra disso ? Consegue reviver o momento em que nasceu ?

Não é aí que está nossa memória consciente.

Com o tempo, nos desenvolvemos o suficiente para que se estabeleça um outro tipo de relação com o mundo.

Aos poucos começo a fazer conexões entre situações, pessoas, ambientes e meu mundo cresce.

Se antes era o berço e o colo, agora é a casa, o playground e, pouco depois a escola.

Em cada fase, uma nova descoberta que me deixa maior e transforma quem sou.

Ainda estamos na pré infância onde tudo parece gigante.

Já voltou depois de adulto a algum lugar onde frequentava quando criança ?

O que era enorme ficou pequeno, inclusive as pessoas. No entanto todos os objetos continuam iguais, mas você cresceu.

Como a referência é sempre eu, agora que cresci, tudo parecer encolher.

Agora tenho amigos.

Frequento escola, pratico esporte, desenvolvi minhas vontades e, acredite, métodos para manipular a meu favor.

É quando acredito que sou quem decido ser: o herói , o vilão, o jogador, o atleta campeão…Nessa fase, o mundo parece ser do tamanho dos meus sonhos !

Talvez aí você consiga se lembrar.

De quando ficava de olho na menina mais bonita da classe ou ganhou o beijinho no rosto do coleguinha que lhe fez andar nas nuvens.

A partir dos quatro, cinco anos começamos a registrar com mais complexidade as conexões entre fatos, fazendo com que, mais tarde, eu consiga resgatar da memória os mais significativos.

É com o tempo que nos reconhecemos.

Experiências de vida sempre são registradas de tal forma que, aquilo que sou, está diretamente relacionado a maneira com que o mundo foi nascendo para mim.

De fato é isso que acontece. Se todos chegamos aqui da mesma maneira e muitos tem até a mesma criação e oportunidades, porque para uns a vida parece ser mais atraente e cheia de possibilidades ?

Já sentiu que seu mundo é muito diferente do ideal ou, pelo menos, do razoável ?

Vivemos debaixo do mesmo sol.

Compartilhamos do mesmo ar, as mesmas histórias e, no fundo, temos os mesmos objetivos.

Muitas vezes partimos do mesmo ponto, achando que chegaremos ao mesmo lugar.

Quando, no cinema, o mocinho não morre, ficamos felizes, quando o corrupto é punido nos sentimos justiçados. Por mais que a história de cada um seja absolutamente peculiar, existem pontos, alinhavamentos, traços onde elas se coincidem.

E isso pode fazer toda a diferença.