Drummond.

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Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?

Carlos Drummond de Andrade.

Consciencia.

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Quando eu era âncora da rádio Sul América trânsito, confesso que ficava irritado com alguns ouvintes.

Um dos que me irritavam, eram aqueles que entravam no ar, direto do seu carro, para reclamar que a prefeitura não ampliava as restrições do rodízio de veículos.

– Porque você não deixou seu carro em casa hoje ? , eu perguntava

– Ah, porque tenho que trabalhar né. – respondia o ouvinte.

Então o rodízio não era para o bem da cidade. Era só um meio para retirar da sua frente os outros carros e deixar a rua livre para nosso amigo.

Já notou que, quanto menos consciência uma pessoa demonstra ter, mais legalista será?

O excesso de leis, demanda tutelamento, obrigações, imposições necessárias onde só se obedece se houver punição.

Não faço o bem simplesmente porque é bom. Faço o bem para que o mal( punição) não venha sobre mim.

Outro dia uma pessoa me dizia que o conceito de punição e medo que em geral as igrejas imputam sobre Deus é necessário a medida em que, sem freio, o povão perde a estribeira.

Discordei, dizendo que , por mais difícil e demorado que seja, prefiro caminhar pelas vias da conscientização para que o bem seja bom. Porque bem por culpa ou medo, não é bem, é mal com aparência de virtude, mas que interiormente provoca um efeito contrário na mesma proporção que, por fora, parece ser bom.

É por isso que em ambientes “santos” existe tanta gente doente e ambientes “sérios” tantos corruptos.

Se minha opção é andar pela lei ,e não pela consciência, faço sem saber porque. Respeito só porque me obrigam e só acho bom para não ser punido.

O problema é que nossa alma não aceita isso.

Interiormente, de um jeito ou de outro, sempre buscamos um sentido para as coisas que nunca é encontrado pela via da imposição.

Ambientes legalistas são fábricas de gente adoecida.

Exigir o aumento do rodízo ( rigorosidade da lei) enquanto eu não deixo meu carro em casa ( falta de consciência) é só um pequeno exemplo do quanto o legalismo faz mal.

Descansar na lei pode ser mais fácil a medida em que te acomoda,mas será que vale a pena?

Até que ponto você depende dela?

Saber o real valor das coisas e onde elas encaixam em nossas necessidades é consciencia.

Mentes conscientes são pacificadas, sabendo que o bem basta em si e, o que vier além disso, é para te prender na dependência de algo que, no fim, pode te fazer aparentar ser bom, mas no raio x da alma aparecerá o quanto ela envelheceu e se desgastou.

Pense nisso.

Mudança.

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Comecei a escrever esse texto com a sensação de que tenho falado muito sobre eleições aqui, mas o dia de votar está chegando e a correria dos candidatos não me deixa calar.

Lamento que seja difícil frequentar local público, sem nenhum tipo de assédio dos postulantes: Carros de som em altíssimo volume, com marchinas insuportáveis dizendo que “fulano é do povo e veio para mudar”. Sei que já tinha escrito sobre isso antes, mas o Obama nem imagina o quanto seu mote “chance” influencia nossos candidatos tupiniquins.

Você para no faról e vê aquelas moças com cara de fome, sono, desanimação….enfim, aparência de quem realmente está parada com uma bandeira na mão pela pura necessidade de alguns poucos trocados.

Se em São Paulo temos a lei cidade limpa, em Porto Alegre, por exemplo, o cidadão é obrigado a ver rosto de político sorrido em outdoors, adesivos, lambe lambe, poste, muro, faixa….

Todos lá, sorrindo e com palavras de ordem como “mudança”, “renovação”, “saúde”, “casa própria”…

Claro que isso rende muitos momentos de humor, como o candidato a prefeitura de Pelotas que em sua campanha de tv olhando para o lado da câmera, sem a menor noção de que era para a lente que ele devia olhar.

Mas casos de humor não tiram o peso da história. Explico.

Se em tempos de eleições somos obrigados a conviver com esse carnaval de políticos é porque nós gostamos disso !

Vivemos na era do espetáculo, onde a imagem vale mais do que tudo.

Em tempos assim, ninguém vota em um candidato se : 1- Estiver mal nas pesquisas ( se niguem vota é porque deve ser ruim, pensam)  2- Que fala a verdade ( se o candidato aparecer dizendo que tem coisas que são impossiveis de fazer sozinho e que vai precisar da consciência do povo, sabendo que parte da responsabilidade é dos cidadãos, certamente não se elegerá) 3- Que não tenha musiquinha. ( Tem gente que vota porque acha a musica bonitinha) 4 – Que não seja simpático. ( E daí se é sério? Com esse mal humor eu não voto ! dizem) 5- Que não “aparente” ser bom . ( Nas roupas, tom de voz, olhar sereno…toda uma preparação para , com cara de bom moço, conquistar o eleitor).

Se precisamos disso para escolhermos nosso candidato, é só isso, um candidato moldado segundo nossa necessidade de boa aparência, que teremos.

A política, assim como as outras áreas de nossas vidas, também sofre as mesmas interferências da imposição da estética sobre a ética, da imagem sobre o conteúdo.

Honesto ou não, competente ou não, todos os políticos são nivelados por baixo a medida em que sabem que não é isso que lhes credencia a serem eleitos, pelo contrário, ganha quem aparentar mais.

Na busca da aparência ideal, rios de dinheiros são gastos as custas de acordos com financiadores que, sabemos, depois inviabilizarão um governo sem “conchavos”.

E os culpados somos nós.

Enquanto esperarmos isso, sequer nos lembrando de quem votamos nas últimas eleições, campanhas políticas serão parecidas com teste para BBB ou mister simpatia.

O povo reclama, mas é o povo quem pede.

O povo acha ruim, mas, somos nós, o povo, quem banca esse espetáculo.

São alguns mêses de promessas de mudança, de rostos sorrindo, tapinhas nas costas, carros de som, musiquinha chata para depois, no fim das contas, experimentarmos mais do mesmo, esperando a mudança que parece nunca vir.