A reunião.

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Texto da minha penultima coluna no site www.tudoradio.com

Dia de reunião de locutores.
Aos poucos vão chegando, dois ou três dão um pulinho no estúdio para conversar com o colega que está no ar, outro aproveita para cumprir a escala de gravação, outros põe o papo em dia enquanto saboreiam um cafézinho.
Paira uma certa expectativa.
Em sua sala, o coordenador de cara amarrada olha para o computador, talvez repassando o que vai ser dito, ou será que só está no “msn”?
Durante minha vida no rádio, já participei de reuniões de todos os estilos:
Aquela onde o coordenador cobra resultado da equipe enquanto justifica seus erros caçando culpados.
Credita a queda de audiência pela falta de sorriso do locutor da tarde ou a má operação da mesa de som por parte do locutor folguista.
Esse tipo gosta de performances, socos na mesa, cara feia, tudo o que lhe de alguma sensação de poder diante de sua evidente incapacidade.
Tem também aqueles que fazem questão de parecer acessíveis.
Costumam usar frases prontas como “A porta da minha sala está sempre aberta” ou “nós somos uma equipe e a opinião de cada um é importantíssima”, mas quando alguém sugere algo, finge anotar, faz cara de interessado, mas só dura o tempo da reunião.
Terminando esquece tudo até chegar a próxima, onde usará o mesmo discurso.
Já viu o vaidoso ? Aquele que faz questão de manter uma imagem de “antenado” e acessível, valendo-se de artifícios como o auxilio de escudo humano: alguem ambicioso, com um pouco mais de atitude para suprir sua sabida falta de conhecimento.
Esse, por sua vez, age como pit bull de quintal que morde todos os que aparentarem lhe desafiar(até ouvintes que criticam a rádio), preservando a imagem “cool” do seu chefe.
Voltando a nossa reunião, chegou a hora.
Todos correm para a sala de reuniões a espera do coordenador.
Dez, quinze, vinte minutos e nada. Quarenta, cinqüenta minutos depois da hora marcada nosso herói aparece com cara de poucos amigos para evitar que alguém reclame do atraso.
Ninguém fala nada.
– Boa noite – ele começa sem falar sobre o atraso- estou aqui com o último Ibope. – Para criar suspense ele faz uma pausa e olha a todos.
Eu queria que alguém me explicasse porque caímos tanto? – pergunta como se não fosse com ele.
Todos quietos.
– A vontade que da é mandar todo mundo embora e contratar uns moleques que estão saindo do curso porque o que vocês estão fazendo ta ridículo. Alguém tem alguma coisa a dizer?
O silencio paira na sala.
– Vocês tem que ficar mais ligados ! Leiam mais, naveguem na internet, vejam a MTV, vão as baladas….Eu só cheguei onde estou porque sempre estive a frente, sempre fui ligado e nunca me conformei com isso…….. – Ele começa a se elogiar.
Nessa hora chega o locutor do horário da manhã, desculpando-se pelo atraso.
Apesar de ter chegado somente cinco minutos atrasado na reunião que começou com atraso de cinqüenta minutos, é repreendido:
– Esse seu atraso demonstra total falta de interesse e respeito pela equipe, isso é indesculpável e, da próxima vez ,será demitido. -Claro que o fato de não mencionar seu atraso de cinqüenta minutos é só um detalhe.
Enquanto fala, todos ficam quietos. Enquanto busca culpados, não chama a responsabilidade. Enquanto inventa causas, não orienta para que a equipe melhore.
Uma hora depois ele encerra a reunião e todos saem com uma tonelada de peso nas costas, piores do que entraram.
Ninguém melhorou, não motivou, não apontou caminhos e ficou uma hora falando só pra transferir sua responsabilidade para a equipe.
No dia seguinte voltam todos inseguros para o ar. Com medo de errar perdem a criatividade.
Sem saber onde estão errando, não melhoram e, como uma bola de neve, a rádio continuará a cair.
Por mais que eu tenha criado essa história, aposto que muita gente já viveu algo parecido.
São cobrados, xingados, humilhados por gente despreparada pensando que, tratando sua equipe como animais, melhorarão.
Se isso acontece com você, não deixe acontecer.
Procure ser melhor, entender as causas do problema para, com sabedoria,calma e educação, apontar claramente onde estão os erros.
Fazendo isso será respeitado.
Se você é um desses carrasquinhos, saiba que isso não é liderar. Formar uma equipe tem a ver com conquistar a admiração, confiança e o respeito de seus liderados e isso se dá com exemplo, trabalho e competência.
Gritar e dar soco na mesa pra garotos amedrontados que só querem manter seu emprego não faz de você melhor, muito pelo contrário, demonstra falta de confiança no seu próprio trabalho e te afasta da posição de respeito que os lideres devem ter.
É claro que no meio disso, felizmente tem gente boa. Profissionais que ainda sabem valorizar sua condição e extrair o melhor da equipe, mesmo que as vezes seja necessário ser mais duro.
Esses estão na frente e conseguem formar verdadeiros times.
Os outros vivem sob a ameaça da instabilidade e, agem como meninos com seus liderados, porque não são respeitados nem por aqueles que lhe deram o cargo.
No rádio existe gente de todos os estilos. Gente boa e nem tanto, sábios e burros, magoados e motivados.
Tenha você posição de comando ou de comandado, procure ser o melhor sabendo que respeito se conquista.
Se as vezes parece difícil, resta o consolo de saber que, no fim das contas, o mercado separa os que são bons dos que só gritam, os que assumem suas responsabilidades dos que caçam culpados, os que sabem pra onde estão indo dos que só andam em circulos.
De que lado você está?

6 comentários sobre “A reunião.

  1. Andrea Poncioni

    Penso que devemos tentar encarar estas pessoas não com conivência a seus erros, mas com o perdão e o respeito que queremos ser tratados…acredito que muitos não sabem o que fazem, são movidos por seus mecanismos inconscientes, por suas cadeias internas assim como todos nós o somos, em alguma área da nossa vida.
    Sempre me questionei muito acerca de todos e de tudo que vejo de errado, principalmente o que considero errado em mim, mas tenho aprendido que isso é como correr atras do vento…perceber o que esta errado realmente é importante, mas, mais importante do que isso, é apontar soluções e fazer a diferença no mundo em que vivemos com nossas atitudes.
    Fazemos a diferença com estas pessoas imperfeitas, quando nos colocamos do lado dela e em amor e com franqueza tratamos com ela daquilo que acreditamos poder contribuir com o seu crescimento. Penso que machucá-las também não resolve e no final o que teremos é só mais um ferido, acuado internamente, com medo de perder o emprego e com mais uma tonelada nas costas…Ferir esta pessoa é nos colocarmos em mesma posição que ela.
    Como disse Paulo em uma de suas cartas: “maldito que sou não faço o bem que quero e faço o mal que não quero”.
    Se te machucaram, suporta a dor sozinho sem devolve-la, porque a vingança gera mal à humanidade. Porém, não deixe o que é errado sem paga, passar em vão, tenta entender esta pessoa, conversa com ela, ajuda ela, porque a única esperança esta em faze-la entender que sua atitude não está sendo legal.
    Gosto de muitas coisas que vc fala, são reflexões que já me ajudaram em algumas situações, mas olhando para trás, quando vc esta com raiva eu geralmente não gosto dos seus textos, porque eles perdem o tom do bom equilíbrio.
    Parabéns por seu trabalho…fica aqui um abraço sincero à você.

  2. flaviosiqueira

    Andrea, muito obrigado !Mas não estou com raiva não. Foi um desabafo de 2008 que achei pedagogico republicar. Apareça mais vezes!

  3. orlaciro

    extremamente pedagógico Flávio.
    “No dia seguinte voltam todos inseguros para o ar. Com medo de errar perdem a criatividade.”

    A falta de SABEDORIA trás este tipo de situação. É isso é lamentável.
    Eu um dia de empregado passei a empregador. O restaurante não deu certo mas sai feliz pois fiz 3 amigos : meus 3 funcionários.
    Tive uma experiência maravilhosa , pois no dia em que fechei a empresa os 3 se reuniram [ Ana ,Diones e Vanessa ] e me disseram unânimes que se servisse de apoio , eles gostariam de dizer que nuca tiveram um empregador como eu que entendesse as dificuldades e os tratasse como se fossem iguais.
    Eu respondi que não poderia tratá-los de outra forma pois em nada eram diferentes de mim : seres humanos com falhas mas com disposição para aprender e se superar.

    Aprender, e se superar…se caminhássemos desta forma com humildade, entenderíamos que na vida profissional, no mundo dos negócios,enfim… deve-se sim ter o perfil de líder, mas a liderança requer ponderança, temperança e reflexão constante.

    Mas o pior e que se passaram 4 anos e de lá para cá nossa sociedade ainda premia e aceita este tipo de líder.

    Leio muito você e Caio Fábio mas pouco opino e me manifesto , mas estou sempre por aqui.

    Abraços , paz, graça e sabedoria sempre para tí Flávio…em tua vida pessoal e profissional

  4. joão luis beserra e silva

    falando do texto do flavio siqueira, pessoa que admiro exatamente por ser uma das mais equilibradas no que diz: o apóstolo Paulo fala também em uma de suas cartas que existem situações que precisamos ser parados, estancados, cortados no nosso fluxo de egocentrismo, falso moralismo, senso de justiça própria, que aliás ele mesmo chama de “trapos de imundícia” todos esses componentes são os preferidos dos “chefes” que se acham a personificação do próprio poder. Contudo quando isso acontece normalmente não entendemos e pelo menos inicialmente não aceitamos tal disciplina como sendo algo bom, proveitoso e vindo de Deus pra nós. Não obstante com o passar do tempo, o próprio tempo que é “servo” de Deus se incumbe de à conta gotas ir nos mostrando e gradativamente nos descortinando das nossas imperfeições, e ao mesmo tempo em que nos descortina também nos cura e encoraja-nos a da próxima vez sermos melhores no trato com nossos próximos. Portanto quero dizer com isto que apesar de entender que na maior parte das vezes “fazemos exatamente o que não queremos” e é claro que isso é por conta da nossa natureza caída, precisamos sim ser repreendidos e disciplinados pela vida, por mais chato ou “injusto” que achemos, e é sempre assim que pensamos, pelo menos inicialmente, mas isso é saúde pra nós, pra todos nós!
    Desde já me perdoem por qualquer palavra mal falada, ou incompreensiva, é que não sou nada bom com essa arte de “escrever”, pois às vezes acaba saindo ou sendo interpretada de uma maneira que não corresponde ao meu real sentimento. Sinceramente, espero ter ajudado. abraços a todos!

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