Entrevista para o Tudo Radio.com

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Entrevista que dei no começo do mês para o Daniel Stark do portal Tudo Rádio.com. Para quem não leu, segue na integra.

Flávio, como definir essa sua passagem pela SulAmérica Trânsito? O que você considera de mais importante nessa trajetória pelos 92.1 FM?

Desde o primeiro dia trabalhar na primeira rádio exclusivamente voltada para o transito em FM foi um baita desafio.Naquele momento tinha gente receosa em relação a viabilidade de uma rádio monotemática.Mas quem vive em SP sabe muito bem que transito é mais do que um “tema”, mas envolve o tempo,saúde, segurança, dinheiro, trabalho, relacionamentos. Ficar parado no carro sem saber quando vai andar, representa muito na vida dos paulistanos. O desafio era: como transformar essa necessidade em um produto e , que esse produto, se tornasse atraente para quem ouve.Diante desse desafio é que trabalhei para dar minha contribuição a equipe e trazer para o “news” a “comunicação”, o cuidado com a plástica, o conceito da prestação de serviço imediata. Deu certo. Cada dia trazia o grande desafio de satisfazer a necessidade do ouvinte sem deixar a rádio chata. Diante disso, fica dificil eleger um ponto mais importante nessa trajetória, no entanto, acredito que situações onde ouvintes realmente com problemas no transito relativo alivio e demonstravam gratidão, traduziam toda importância e ineditismo do trabalho.

Muitos acreditam que a SulAmérica foi uma espécie de revolução do FM,demonstrando a força da segmentação do rádio paulistano.. Você concorda com essa idéia ou acredita que a rádio estaria em outro patamar?

Acho que foi e ainda é uma revolução para todos que precisam dela e, com sensação de abandono em relação ao poder público, encontram na prestação desserviço do rádio, a possibilidade de se manifestarem e receberem ajuda. Já vivi momentos como o de poder salvar a vida de um ouvinte que , ao vivo comigo, pedia ajuda pra chegar ao hospital. Mobilizei a produção , os ouvintes se engajaram,e lhe acompanhei , ora falando com ele no ar, ora ligando pra ele, praticamente até chegar ao hospital.Tudo ao vivo. Hoje esse ouvinte é amigo e está bem, felizmente. Já recebi na Band uma família grata pois ficaram na última enchente da cidade presos no carro com seus filhos pequenos sem poderem sair. Foi na rádio que encontraram ajuda. Nessa noite da enchente, por conta própria, só saí do ar quando a água abaixou – por volta das 3 da manhã- e isso nunca foi um problema lá dentro. A direção sempre me deu liberdade para tomar no ar atitudes que julgava conveniente, como nessa vez em que estiquei a programação até o meio da madrugada.Situações como essas eram quase diárias e , a grande recompensa, era a chance de me colocar como respaldo pra quem sintonizava a rádio.Vejo aí um grande exemplo de até onde o rádio pode ir. Do quanto as pessoas ainda buscam apoio no veículo e do quanto, de maneira geral, estamos o usando mal.

Você acredita que esse tipo de programação executada pela SulAmérica tem um bom espaço em São Paulo? Dá para obter retorno com uma rádio nesse formato?

Acredito. Estamos vivendo uma fase importantíssima na comunicação. Rapidamente as mídias estão mudando. Tem muita gente que já deixou o rádio de lado para buscar outro tipo de conteúdo na internet. Pela web tenho acesso a música e conteúdo direcionado as minhas preferências que o rádio não tem. No entanto o que barra essa migração de mídia – do rádio para net- é o fato de que nem todos tem acesso. No entanto, as estatísticas apontam que esse numero está mudando, até porque a tecnologia ajudará para que, em poucos anos, todos possam , por exemplo, acessar uma rádio web de dentro do seu carro, do celular ou de qualquer lugar. Quando isso acontecer, o leque de opções aumentará absurdamente e só com a segmentação será possível sobreviver.. Note que não me refiro ao “fim do rádio”, até porque o conteúdo característico do rádio sempre será aceito, mas o que estamos vivendo é uma mudança gradual de mídia e, com isso, convivendo com os reflexos que essa mudança invariavelmente traz no produto final. As rádios já perceberam essa tendência e,sabendo que a musica deixou de ser o único diferencial buscam conteúdo. Aí esbarramos em outro problema que é o medo de arriscar, a falta de recursos ou de gente especializada nisso e a falta de grana.Cria-se um dilema que é : sei que preciso disponibilizar conteúdo na minha rádio , mas por outro lado não sei que tipo de conteúdo e não tenho dinheiro para investir.Diante desse dilema, muitas vezes os diretores apelam para conteúdos tradicionais, como boletins informativos, curiosidade sobre bandas, games ou qualquer outro tipo de ferramenta muitas vezes sem levar em consideração que as pessoas já tem acesso a esse tipo de conteúdo, em outras fontes como a internet por exemplo. Vira uma competição desnecessária. Por isso eu acredito que, mais do que nunca, no fim das contas o grande diferencial de cada rádio está nas pessoas que trabalham lá.O que elas são e como conseguem transmitir isso no ar com espontaneidade e criatividade. Só acredito em fórmulas que incluam entre os ingredientes gente. Que não imbecilize o ouvinte e não acredite em dogmas. Quando você consegue sintetizar isso em uma marca, cria um conceito e aí as pessoas passam a se identificar e gostar de você.Voltando pra sua pergunta, acredito que, levando esses princípios em consideração, qualquer tipo de programação pode dar certo em qualquer lugar.

Deve ser complicado segurar uma faixa de horário inteira mantendo no ar o mesmo assunto, acionando repórteres, ouvintes… qual foi a maior dificuldade enfrentada por você na SulAmérica?

Quando você fica cinco horas falando sem parar, sem tocar musicas e basicamente improvisando é que se dá conta do tamanho do desafio.Não dava pra tomar água, ir ao banheiro, atender telefone ou qualquer coisa que levasse mais de 1 minuto. ( tempo dos breaks da rádio)Se, por um lado, isso gera efeitos colaterais como sonhar com transito todas as noites, perder a voz, e cansaço, por outro lhe dá a grande oportunidade de exercitar itens fundamentais para o radialista como improviso e a capacidade de comunicar sem ser cansativo.O segredo era me obrigar a manter a concentração e cobrar os coordenadores de estúdio a se envolverem ao máximo me dando respaldo.Foi um grande desafio mas que valeu muito a pena!

Sabemos que a profissão de radialista é puxada e existem muitas dificuldades em qualquer rádio em relação ao tempo ou volume de trabalho. Na SulAmérica é mais complicado? Existe alguma grande diferença nesse aspecto entre uma “all news” e uma FM musical?

Talvez o maior desafio na Sul America seja pelo fato de você estar no ar durante muitas horas prestando serviço sem parar. Eu falava com centenas de ouvintes diariamente no ar, sem nenhum tipo de roteiro ou direcionamento em relação ao rumo do papo.Alem do mais, falar sobre o transito da cidade, linkando informações da CET, repórteres e ouvintes e sabendo que em poucos minutos tudo já estava diferente era desafiador.Você tinha que estar pronto pra responder perguntas que não sabia como caminhos de ruas que desconheço, ou situações absurdas como ouvintes reclamando que viu a repórter entrar na rua sem dar seta.Isso requer um nível de concentração e preparo que uma rádio musical não te exige.

Existe espaços para outras “SulAméricas” no Brasil ou só São Paulo pode absorver uma rádio com esse formato?

Acho que existe sim. Talvez em outros lugares o ritmo seria diferente, talvez fosse necessário agregar outros recursos, mas acho plenamente viável já que na Sul America ficou provado – e eu insistia muito nisso desde o começo- que quando você agrega humanidade ao produto, seja ele qual for, as pessoas se interessam e querem ouvir.

Você não faz mais parte da equipe da SulAmérica Trânsito e o Tudo Rádio.com soube que está de malas prontas para Porto Alegre. Qual o motivo dessa mudança de cidade?

Não faço parte da equipe Sul America transito desde o começo de junho. Trabalhar lá foi maravilhoso. Conheci muita gente do bem e aprendi demais ! Tive grande reconhecimento por parte dos ouvinte e do mercado que sinceramente eu não esperava. Colegas de rádios concorrentes viraram fonte de informações de transito mandando torpedos no meu celular e depois ligavam agradecendo a prestação de serviço. Ouvintes iam na rádio levar presentes e, emocionados, organizavam festas e encontros. Foi uma experiência fantástica e sou grato pelo tempo que fiquei lá. Só que , como em toda a relação, chega uma hora em que é necessário cada um seguir seu caminho e, no caso da rádio,também foi assim. Eu precisava de novos ares, de outros desafios e aí que entra Porto Alegre. Gosto muito de lá e, desde 2004 tenho pensado em me mudar. Em 2007 quase fui e, deixei de lado a idéia para fazer parte da equipe da Sul America. Agora que saí, vejo um bom momento para ir.Adoro o rádio de SP, trabalhei em várias e tenho muitos amigos, mas acho que preciso de outros desafios.Vou aliar o prazer de estar em uma cidade que me faz bem com o desafio de praticamente recomeçar no rádio ja que estou indo pra lá sem ter fechado com ninguém.

Quais são seus projetos futuros? É verdade que houve interesse de uma grande emissora de SP para ter você na equipe? Porque a recusa?

 Fui honrado com o convite e cheguei a aceitar. Mas fiquei inquieto por não ser o que eu queria no momento. Ser locutor de rádio em SP já fui em todas as emissoras que quis.Entendo que, como em qualquer profissão, chega uma hora em que você deve caminhar, arriscar, abrir mão de algumas coisas em busca de outras possibilidades. Sair da Band e ir para outra rádio era mais fácil,mas preciso de desafios.Depois de participar da elaboração de uma rádio revolucionária como a transito, eu tinha que continuar caminhando e hoje vejo mais desafios indo pro Sul do que ficando em SP.Lá vou inaugurar, no segundo semestre desse ano,uma escola de rádio em Porto Alegre. Quero compartilhar com eles o que vivi ao longo de dezessete anos entre as principais emissoras nacionais e sei que o povo de lá gosta muito de rádio. Também estou investindo em uma produtora de idéias. Não só pra gravar vinhetas,spots e programas (também, claro!) mas ajudar as rádios e clientes (empresas, agencias) com ares novos dando conteúdo diferenciado, que valorize as pessoas, que tenha um toque de humanidade.Que saia daquela de somente informações sobre política e policia, mas produza material do bem, pro bem de quem ouve e veicula. Estou conversando com psicólogos, sociólogos, cientistas políticos, jornalistas, atores, radialistas, professores universitários e gente que entende que os ouvintes estão cansados do mesmo e querem conteúdo que alimente a mente também.Como estou usando a net como ferramenta, posso estar em qualquer lugar do Brasil ou do mundo.Como meio de deixar o povo informado e pra mantermos contato inaugurei um blog: <https://flaviosiqueira.wordpress.com/. Lá pretendo escrever sobre pensamentos, rádio, política, filosofia e , sobretudo, interagir com quem gosta de mim. Tem muita gente entrando no blog e as coisas por lá tem tomado um rumo maravilhoso.

Existe a possibilidade de acompanharmos novamente o Flávio Siqueira no rádio, mas agora em Porto Alegre?

Ainda não fechei com nenhuma rádio no Sul. Devo chegar em Porto Alegre nos próximos dias e, então,vou conversar com o povo.

Como foi e quanto tempo durou seus trabalhos pela rede popular do Grupo Bandeirantes, a Band FM?

Quando aceitei o convite do Biasi e do Betinho para trabalhar na Band fiquei muito feliz.Eu ja tinha feito muitos estilos de rádio, mas faltava o popular. A Band FM é uma grande rádio, cheia de grandes profissionais e vi a oportunidade de aprender.Foi o que aconteceu. Gente como Amorim Filho, Marcelo Siqueira e tantos outros me ensinaram demais e lá aprendi a falar com gente que eu não tive acesso nas outras rádios. Meu último trabalho na Band FM foi o Love Songs, o que particularmente representou um sonho, ja que , quando adolescente, eu ouvia o Love na rádio Cidade. Fiquei por lá um ano e meio e saí pra me dedicar a Sul América Transito. No entanto, pouco depois da saída, fui surpreendido pelo convite do Carboni para trabalhar na rádio Bandeirantes AM.Lá eu fazia as folgas dos jornais Primeira hora, Três tempos e jornal da hora. Foi uma experiência sensacional ! Trabalhar ao lado de gente como Zé Paulo de Andrade, Salomão Esper, Zé Nello, Zaidam, Dede Gomes, Carboni e tantos outros é mais do que eu imaginei. Saí da Bandeirantes AM junto com a Sul América honrado por ter estado com profissionais como esses. Aprendi muito la!Depois, já com meu amigo Gustavo Oliveira, tive a chance de voltar pra Band FM, mas como estava em outras duas rádios do grupo, infelizmente não deu. Mas na Band FM só tenho amigos e torço muito pelo trabalho deles!

Agora uma pergunta complicada, creio eu… Transamérica, Jovem Pan 2… são muitas rádios na sua vida. Qual dessas fases você lembra com mais carinho e porque? E qual foi a fase mais complicada e os motivos que levaram você a achar isso?

Lembro de todas com muito carinho ! Em todas vivi momentos especialíssimos e , no caso das duas que você citou, trabalhei mais de uma vez. Além da Transamérica e Jovem Pan, na Imprensa, 89, Musical, Metropolitana, 97, Clip, Nova Brasil, Band FM, Bandeirantes AM, Sul America…em cada uma várias lições. Tenho amigos em praticamente todas as rádios do dial de SP e , se em algum momento aconteceram situações difíceis, foram superadas pelas boas.Mas pra não ficar em cima do muro, acho que a fase mais difícil é sempre o inicio. Quando ninguém te conhece e você tem poucas oportunidades. Nessa fase a grana é curta e dormir na rádio não é raro.

Voltará algum dia para São Paulo?

Não to indo pra Porto Alegre pensando em voltar.  É claro que vou em busca de outros desafios e, se não der certo, não terei problemas em ligar pra algum amigo e voltar pra alguma rádio até porque, felizmente, as portas estão abertas na maioria. Mas pra quem é de São Paulo e gosta de mim não ficar triste, estou negociando com algumas rádios um programa gravado em Porto Alegre e veiculado em São Paulo. Vamos ver se vira. Também tem a possibilidade de um programa de TV em emissora nacional. É uma oportunidade que tinha pintando antes da Sul America Transito, não deu certo e coincidentemente,no dia da minha saída da rádio, pintou de novo. Estamos conversando, mas é possível que eu esteja nas telinhas também. Agora minha maior preocupação é como preparar o chimarrão e gostaria que os gaúchos que estão lendo essa entrevista me dessem dicas…rs

Falando em voltar, parece que os leitores do Tudo Rádio.com terão novidades. Você pretende reforçar a equipe do portal. O que os “radionautas” podem esperar de seu retorno como colunista do Tudo Rádio?

Escrever no Tudo Radio sempre foi muito gratificante. É impressionante a penetração que o site tem entre os profissionais de todo o país, através das colunas que eu escrevia aqui, conheci radialistas e ouvintes do mundo inteiro.Por questões éticas, enquanto estive na Band preferi me distanciar do portal como colunista. Deixo claro que a Band nunca me impediu de nada, mas era uma questão pessoal. Agora não vejo impedimentos.A idéia é voltar com as reflexões sobre o meio e entrevistas com gente que pode agregar, alem de manter aqui uma grande possibilidade de interação com quem lê o site e depois me manda e-mails. Acho que nosso meio precisa de gente que gosta de pensar, de discutir novos caminhos, de debater sobre o rádio, seus acertos e erros.

Flávio, para encerrarmos a entrevista, mande um recado geral para quem está acompanhando o Tudo Radio, ou seja, considerações finais sobre seu trabalho, possíveis lembretes e mais uma pitada de projetos futuros. Fique a vontade que o espaço é seu.

Quero lembrar aos profissionais que estamos vivendo momento de definições. Nós somos o rádio e o rádio será no futuro, aquilo que nós pretendemos ser. Se o tempo é implacável, temos que entende-lo e nos adaptarmos as mudanças que ele impõe.Naquilo que falamos, no conceito de rádio que visualizamos, na maneira em que nos inserimos nessa nova realidade.Como em toda profissão, na nossa, o risco é necessário.Sair da zona de conforto, abrir mão de velhos conceitos, aprender com o passado tendo coragem de mudar; tudo isso é fundamental.São os ouvintes quem fazem a seleção e o mercado quem, no fim das contas, regulará quem serve e quem não serve.Tem espaço pra todo mundo, porém os melhores espaços,estão reservados para os que se preocupam com os detalhes, e se colocam na condição de seu próprio chefe por cobrar sempre mais de si mesmo. Procure ler, se informar,valorize a sabedoria, aprenda a ouvir e decodifique informação em tudo; nas pessoas na rua, nos amigos, natureza..em tudo! Mas saiba que,quanto mais você aprende, mais desconforto sentirá na medida em que for obrigado a lidar com gente conformada ou que se apequena diante dos desafios sem aceitar mudanças. Quando for assim, saiba que você terá duas opções : ou se adequai, ou vá embora e se arrisque.No rádio ou em qualquer lugar, sempre tem espaço para quem sabe que as diferenças estão nos detalhes e na incapacidade em ser mais um.Aprenda a lidar com gente e consigo mesmo, não se isole e nunca se sinta injustiçado. Mude o que não te contenta e saiba perceber quando é hora de ir embora.Aproveite as oportunidades que virão e seja grato.Quando é assim, a vida se preenche de sentido e, mesmo as dificuldades,contribuirão pra que você seja uma pessoa e,conseqüentemente, um profissional melhor.

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