Já que não posso mudar o mundo

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Nos perdemos acreditando que é possível mudar o mundo.

Não, não é.

Movimentos que tentam mudar o mundo, acabam sucumbindo pela frustração que adiante virará cinismo.

Quantas ideias lindas nasceram em berços de simplicidade e depois cresceram, arregimentaram seguidores, empolgaram, se tornaram grandes e poderosos? Agora trabalham para manterem-se: Viraram um fim em si mesmo. Morreram. Você conhece exemplos.

Jovens idealistas no Brasil da década de sessenta, em grande parte, viraram a réplica do que condenavam. (Como nossos pais, diria Elis Regina). Movimentos genuínos de questionamento à religião perderam escrúpulos, ficaram ricos e cruéis.

A esperança de quem pensa que pode transformar a sociedade costuma ser esmagada pelo peso de engrenagens moedoras de sonhos. 

Um idealista que entrar na política será triturado em pouquíssimo tempo. Quem resistirá?

Quando olho para o horizonte acho tudo muito distante e o caminho a percorrer inviável. Reconheço que o horizonte é uma ilusão, que jamais vou chegar aonde o sol se põe. Mas o horizonte me mantem em movimento.

Caminhando percebo que não sou capaz de mudar o mundo, mas há um porém: tudo o que faço interfere em mundos. Nos meus e dos que cruzam meu caminho.

Os grandes passos capazes de interferir na história são resultado de pequenos passos, pequenos movimentos, pequenas escolhas. Jamais de intenções megalomaníacas.

O micro interfere no macro.

Não creio em pessoas ou instituições que propagandeiam serem capazes de mudar o mundo.

Creio em indivíduos e pequenas atitudes sinceras e desinteressadas.

Creio no poder do desencadeamento de pequenos gestos.

Já que não posso mudar o mundo tentarei ser atento, generoso e gentil.

É aí que mora minha esperança.

 

O tempo do outro

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Talvez um dos grandes desafios atuais seja respeitarmos o tempo do outro. A tecnologia trouxe benefícios e deixou tudo muito acessível. Mas sempre há dois lados (no mínimo) e a acessibilidade virou invasão.

Temos dificuldades em aceitarmos o “offline”, a resposta demorada, o silêncio virtual. Tudo parece urgente, mesmo o que não tem a menor importância.

 

 

Jaulas perpétuas

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Ainda sobre o politicamente correto, alguém me disse:

“Você não conhece a dor de uma mulher negra, pobre, moradora de periferia. Não sabe o quanto ela precisa de alguém que fale por ela e dê voz às suas causas. O politicamente correto supre essa necessidade.”

Reconheço. Não tenho ideia das dores de uma mulher negra e pobre que sofre discriminação. Nem as dores de um gay, sempre diminuído, muitas vezes tendo que se esconder da família ou colegas de trabalho.

Não são minhas dores, jamais as questionarei.

Minha crítica é a apropriação das dores. Ao invés de ajuda real, cria-se um exercito de necessitados lutando por gente que se alimenta das mazelas e as usa para causas de poder pessoal.

Pode servir por algum tempo, mas depois se transforma em jaula perpétua onde somente a adesão serve.

Faltam portas, janelas, horizontes; falta ar.

Não se promove consciência, porque, conscientes, caminhariam e seguiriam seus próprios rumos. Seriam livres e deixariam de ser alimento.