A verdade, as gentilezas e o vento

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Tem um vídeo circulando na internet onde o escritor motivacional Augusto Cury explica sua conversão a fé cristã. Por alguma razão própria ele acredita ter sido o “maior ateu de todos os tempos”, até que, por meio de um “método científico” desenvolvido por ele mesmo, chegou a “racional” conclusão de que Jesus é Deus. Desde então tornou-se um convertido.

Palavras “cientificamente” esculpidas para encontrar eco nos corações de quem precisa dessa chancela: Um “grande” pensador (o maior de todos) rende-se e assume a fé cristã. Ele descobriu a “verdade”.

O ateu é mau. O cristão é bom. A fé é certa. A dúvida é errada. Ideias embutidas em sua fala. Acontece que ninguém vive apenas de certezas e as dúvidas são importantes para gerar contraste. Ficamos cegos quando expostos a pura luz, exatamente como a plena escuridão. Cegueira branca, cegueira escura.

Certezas absolutas nos torna arrogantes. Pensamos ser conhecedores da verdade, como se ela coubesse em nossos pensamentos. Os pensamentos não apontam para as “verdades”, eles apenas nos revelam, se movimentam e viram outra coisa. Como o vento. 

Quantos fatores desencadeiam o vento? O relevo, a temperatura, a pressão do ar, a umidade, os corredores formados por corpos, muros, prédios, casas, os deslocamentos; o vento que nos toca e não sabemos o que vira depois. Onde o vento nasce e morre? Não vejo o vento a não ser que ele me toque ou toque um objeto. Não vejo o vento, vejo o movimento do que é tocado por ele. Onde nasce e morre o pensamento?

O cientista, antes de tudo, deve ser um curioso. Caso contrário sua arrogância irá impor fim às descobertas. Um cientista que chega a uma resposta se deparará com outras dúvidas inevitáveis e até então desconhecidas. Então segue o caminho. Ele ainda não chegou. A ciência não é um destino, mas um horizonte.

Um filósofo que acredita saber, deixou de ser filósofo. Agora ele formula respostas, as defende como teses e se apropria delas. É um doutor! Terá seguidores, mas perdeu a dimensão das dúvidas.

E a espiritualidade? Tenho dificuldades em pensá-la sem perplexidade, sem o encanto pelo mistério. Espiritualidade possível de ser dissecada por meios “científicos”, sejam eles quais forem, são reduzidas ao que cabe em uma linguagem. Vento “estocado”, como diria a filosofa.

Queremos controle e o pensamento nos dá essa ilusão. Agora eu sei! E, se o que penso “é”, se você pensa diferente, o que pensa, “não é”. Me cabe te convencer.

O pensamento é importantíssimo, mas é por meio da racionalidade que concluo seus próprios limites. Paradoxo.

Humilde abro mão do controle. Bastam as gentilezas. O vento. O gentil não será “o maior de todos”. A lógica da gentileza me torna o menor. Eu sirvo. Eu cuido. Eu presto atenção. E isso basta. Como o vento.

Ele me toca, eu não vejo. Ele me movimenta e segue o caminho não se sabe para onde. Meu pensamento o reconhece, mas não se apropria dele.

E como poderia ser diferente? Acredito na verdade, no absoluto, acredito que há uma espécie de lógica nas dinâmicas da vida que é tão ampla, tão profunda, tão mais complexas do que meus pensamentos. Meu pensamento aponta, mas não se apropria.

Quem descobre a “verdade” e sobre ela projeta uma linguagem que tente defini-la impressionará alguns, venderá livros, dará palestras, mas a diminuirá. Viverá em ambientes assépticos e jamais se exporá ao vento. Assumirá o controle

O vento é selvagem demais. O vento não respeita os meus pudores, nem minhas verdades. Ele me lembra, inconvenientemente, que não estou no controle.

Bagunça tudo e depois vai embora.

 

 

 

 

Um homem na multidão

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Há uma multidão naquele homem do outro lado da rua.

Quantos pensamentos, quantos sonhos, quantas respostas escondidas na irremediável pressa? Ele não caminha sozinho. Nele os pais, os amigos, o mundo inteiro.

Em seus trejeitos vejo respostas. O homem atravessando a rua pensa que é livre. Ele não sabe que nenhum pensamento é autônomo. As certezas que carrega foram filtradas por outras certezas, as dúvidas fomentadas por outros corações, o olhar que reflete a visão de muitos.

A “coisa” que habita a carne encontra uma linguagem e se expressa. Fazemos ciência, arte, literatura, inventamos religiões, culturas, em tentativas de entender quem somos.

Somos muitos. A humanidade inteira, o universo, talvez, contido naquele corpo apressado que atravessa a rua e agora some no meio de outros.

De repente, velho

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Lembro com clareza dos meus pais dizendo “Como está velho!”. Geralmente, depois de alguns anos sem ver alguém, exclamavam com espanto sobre as bruscas mudanças impostas pelo tempo.

Eu achava aquilo coisa de velho. Por que reconhecer seus pares gerava tanto espanto? Eles estavam envelhecendo e a percepção da velhice alheia, nada mais era do que um gradual movimento do reconhecimento da própria. Começavam se espantando com a dos outros e, em seguida, com a imagem que o espelho denunciava com frieza.

Depois envelheceram e não me recordo mais deles dizendo a frase. Hoje quem diz sou eu.

Vi Ziraldo no Roda Viva esses dias e tomei um susto. Lembro dele mais ou menos com a idade que eu tenho hoje, nos visitando na “primeira série do primário” (sim, já uso essas expressões velhas). Na época eu não sabia direito quem era o tal autor do “Menino Maluquinho”, mas lembro que gostei do livro.

Anos depois reencontrei o Ziraldo em uma palestra aberta em uma livraria dentro de um Shopping aqui em Porto Alegre, obviamente ele estava mais velho, mas isso não me chamou atenção.

Na entrevista que assisti ontem, ele logo avisou: “Saibam que estou velho e aconteceu de repente. Acordei e estava assim.”

Resolvi buscar na internet nomes aleatórios que não via há muito tempo, mas guardava na mente a imagem de sempre. Me assustei! “Como estão velhos!” Repeti o susto dos meus pais.

Acho que estou no mesmo caminho. Reconhecendo nos outros a velhice que bate a porta e branqueia minha barba, serena meus pensamentos e se impõe, implacável, como fez com eles, com o Ziraldo e com todos que superarão a outra opção, morrer cedo.

Estranho essa coisa de envelhecer. A gente , tão jovem, agora se flagra espiado por outro no espelho, parecido com o pai e constata, com certa tristeza, a juventude ceifada entre os que dividiam o vigor dos anos ao nosso lado.

Ziraldo tem razão. Um dia acordaremos velhos. Sei que não é meu caso ainda, mas estou perto do susto que virá pela manhã, logo na primeira imagem do espelho. Cuidarei para que o corpo que degrada não sufoque o menino que lá dentro, espantado, sempre me olhará.

“Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto…é cada vez menos estranho…
Meu Deus, Meu Deus…Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga…Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…” – Mário Quintana